sábado, 27 de maio de 2017

A mentalidade autoritária na história republicana



      É comum assistir na história contemporânea muitas tentativas de conquistar o poder sem termo. Seja pela absoluta incapacidade de ver o seu comando terminar ou pela deliberada noção de que são o retrato do país em que mandam. Este complexo de Luís XIV nada tem de afeito à monarquia de qualquer natureza, mas a regimes prioritariamente republicanos, supostamente democráticos e quase totalmente socialistas ou comunistas.

      A "dinastia" representada pelos "Assad" em Síria ou os "Castro" em Cuba, ou mesmo a tentativa de Rafael Correa de reeleger-se sem limites ou restrições, são acto-reflexo desta ideia a qual vou chamar de mentalidade autoritária. Todas as vezes que deparo-me com a situação da Venezuela, por exemplo, na qual Nicolas Maduro insiste em ter mais e mais dias sem direito à oposição ou à prestação de contas, eu remonto à ideia: a ditadura que tenta-se com estas artimanhas é absolutamente compatível com a ideia de autoritarismo que este conceito toma como certo. Notadamente países cujo governo cai nas mãos de partidos ou pessoas de pulso de ferro tendem a correr grande risco de perder a ideia de "coisa do povo" para a realidade de "coisa de um só, ou de alguns". O que quero dizer? Que a democracia, ou mesmo a república, em mentalidades puramente autoritárias deturpa-se não só em ditadura, mas em uma espécie de oligarquia formada pelos adeptos e pelos militantes do partido dominante. Esta face em nada tem a ver com nobreza ou não de seus membros, mas a uma formação de verdadeiras células de poder que alimentam-se deste e que procuram a todo custo manter-se nele.

      A Rússia soviética foi o grande exemplo material disto. Enquanto foi pensada para implantar à força o socialismo, sobretudo com a morte do czarismo russo do antigo regime, para, então, poder abolir as formas estatais e migrar ao comunismo, falhou consideravelmente. Nunca ultrapassou a linha estatal socialista e, ainda, aparelhou de tal forma este governo, contra seus princípios teóricos, que se tornou a maior máquina burocrática de seu tempo.

      E isto nada tem a ver com a figura do absolutismo régio do antigo regime. Não eram os reis centralistas que figuravam como homens de apreço moralmente deturpável pelo poder. O rei tinha outro estatuto. O rei certamente poderia falar em permanência no poder, pela sua filiação, ao menos em Europa, de uma perceção bíblica (São Paulo em Epístola aos Romanos - 13, 1-2), todavia não em manchar a sua reputação ao fazer de tudo para que seu domínio aumentasse, mesmo que a apelar para aquilo que chamo de exagero de acção. Mesmo entre os reis modernos, aqueles absolutistas, ou entre tiranos clássicos, não havia a burla como instrumento de aumento de poder. A contrário senso do que há hoje, o governante de nossos tempos quer o poder de qualquer forma, a ponto de usar de todas as armas possíveis para garantir este cetro por mais tempo.

     Em suma, quando meus amigos leitores ouvirem falar em autoritarismo, em quebrar leis para poder usurpar por mais tempo o poder, entre outras coisas congêneres, vejam bem a face por detrás destes pedidos. Vejam claramente aquilo que subjaz claramente adiante disto. Está-se diante do gosto excessivo e estima duvidosa pelo poder. A mentalidade autoritária produziu monstros como a URSS, a Coréia do Norte ou a Alemanha nazista. Não é preciso ir muito longe a perceber isto. E esta mentalidade nasce dentro da república, dentro do seio democrático e muitas vezes com maciço apoio popular. Nasceu do desejo do povo, que, segundo Rousseau, é o sítio de onde emana o poder. Se eu considerar este ponto como inflexão deste domínio imposto eu resumo: é bem dele que brotam todos os problemas e crimes, violência e caos causados pela sede incontrolado de controlo.



Eustáquio Silva

domingo, 21 de maio de 2017

Depois do abismo, o golpe: O Brasil pode ir mais fundo na imoralidade.

Depois do fundo do poço cava-se mais e lá o Brasil esconde-se moralmente. Este é o resumo daquilo que lemos, ouvimos e somos moldados a pensar da crise principalmente moral que assola o país. 

Como se não bastasse uma série monstruosa de delações (colaborações premiadas), nós fomos brindados com uma nova modalidade, aquela em que pessoas confessam crimes a milhares de políticos, inclusive presidentes, e vão para os EUA. Aquela em que a própria definição de "colaboração premiada" é traduzida bem melhor em acordo entre interessados do que qualquer outra coisa. A pergunta, deveras pertinente, de minha amiga, e consciente escritora, Claudia Wild, ecoa com toda a razão: a quem interessa tanta celeridade e tanta campanha da imprensa e de um partido que acabou de sair do governo e tem seu líder máximo investigado em cinco processos? A dúvida é retórica. Ninguém cogite a inocência do presidente Michel Temer que deve ser investigado por receber em sua residência um contumaz criminoso (pela própria confissão dele). Todavia, por qual razão não houve perícia da Polícia Federal como em todos os outros casos, inclusive o da gravação da então presidente Dilma para o mesmo Lula oferecendo um termo de posse em clara obstrução da justiça, a mesma que pedem para prender o também criminoso Aécio Neves? 

O Brasil está por sofrer o golpe final dos desesperados envolvidos na sordidez de assalto ao país. Todos unem-se nos bastidores para anular a Operação Lava Jato e contam com a anuência de falsos heróis e da grande e desacreditada imprensa para conseguirem atingir a seus objectivos. O ritmo da lama está a envolver procuradores do Ministério Público Federal, Juízes de instâncias superiores, advogados, políticos dos dois poderes (legislativo e executivo) e culminam em figuras públicas ligadas por laços espúrios ao mar de piche em que estamos sendo afundados. 

Que o Brasil acabou não tem-se dúvidas. Que este país vai ainda mostrar mais desta podridão lê-se nas entrelinhas destas acções inconstitucionais dos que até agora disseram que "eles cuspiam na Constituição". Querem alterar as leis. Querem justificar os seus erros e querem punir quem pode puni-los. Isto é claro sinal de desordem interna. Diante deste sentimento, o de salvar os próprios pescoços, não tem como haver saldo positivo em economia. O país para. O país espera em crise pelos criminosos não pagaram por seus crimes. Lula, em todo o cinismo e arrogância peculiares, insiste que é o PT que irá combater a corrupção. Seleccionam agora aquilo que eu acho de indignação. Aceitam o processo quando convém. Afastam a este quando são os seus erros os escancarados. Em suma, a situação do Brasil é a de uma metástase de um cancro profundo e brutal. Não haverá mais salvação caso consigam alterar a lei e ponham as eleições directas em primeiro plano. Os rumos deste país são surreais e conformes aos da Venezuela. Aqui eu enxergo o grande perigo. Aqui eu tenho visto a grande artimanha. O Brasil acabou. Mas, enquanto cai num abismo sem fim, ainda aproveitam para mutilá-lo sem dó nem piedade. É isto que o maior país da América Latina foi tornado. Infelizmente... 


Eustáquio Silva 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O fim da República Federativa do Brasil


Senhoras e Senhores, a República Federativa do Brasil acabou. Esta não é uma frase dramática e nem fora de qualquer propósito. Se calhar,  até William Shakespeare diria haver algo de podre na coisa pública brasileira. As últimas revelações de um presidente - a comprar o silêncio de um ex-presidente da Câmara dos Deputados - simplesmente dinamitam qualquer chance deste país erguer-se perante o mal da corrupção. O fundo do poço parece, agora, está acima de nossas cabeças... 

Um país que teve a presidente Dilma a sofrer impeachment recentemente. Que vê o ex-presidente Lula, uma vez mais popular de todos os tempos, implicado em cinco processos penais, agora assiste a Michel Temer, actual presidente brasileiro e ao candidato de oposição na última eleição, Aécio Neves, caírem em escutas e imagens diante da corrupção, a marca registada deste país. A corrida ao cargo mor do executivo ainda conta com o presidente da câmara dos deputados, Rodrigo Maia, e o do Senado, Eunício Oliveira, todos citados na maior operação penal de todos os tempos: a Operação Lava Jato. Temer acaba de pronunciar-se pela não renúncia. Mas o governo está sepultado junto com toda a classe política que agora grita pateticamente por "Directas Já", uma inconstitucionalidade a mais de um processo de sujeira que supera em tamanho toda a Amazónia brasileira. Que mergulha no breu da amoralidade este país. 

A república deu errado desde o começo, com o seu golpe na monarquia em 1889. Estes 128 anos seguintes, no entanto, revelaram-se um autêntico fracasso. Uma vez que o aparelhamento dos poderes e sua convivência cínica chegam para provar definitivamente que o único ponto de evolução deste país nestes últimos anos foi a corrupção - e a sua consequente impunidade. Quando chegamos ao ponto de ver todo o espectro político implicado e figuras que foram destaque dos últimos quarenta anos de Brasil todas em flagrante delito de desonestidade sabemos que este país naufragou de vez. 

A intervenção militar cresce em necessidade. Esta não é uma frase boa a dizer-se. Nunca parece são que interrompa-se uma ordem institucional, porém a sua total fragilidade diante do assalto que os últimos anos de PT e PSDB fizeram (aliados ao PMDB) não nos deixa outro discurso possível. O mal chegou ao limite. Não temos mais para onde descer. Pedir que esperem da classe política, toda ela manchada pelo mal de encher os seus bolsos sem lisura e honestidade, que dê jeito com um grito maldoso de volta de um Lula, por exemplo, é jogar o país nas mãos de quem o destruiu. Não espere qualquer solução mágica e aguardem por interesses obscuros a mais em cima da mesa. Assim é o Brasil. Isto transformou o Macunaíma de Mário de Andrade na perfeita imagem diabólica do cidadão brasileiro, infelizmente. 

Amanhã não se sabe que tipo de Brasil ainda irá permanecer de pé. A economia voltará ao frangalho. As migalhas da república jazem moribundas. A crise não é mais a irresponsável marola que Lula, dentro de seu ilusionismo populista, uma vez professou. O Brasil, tal qual o Titanic, afunda rapidamente, enquanto a cantilena dos órfãos do PT parece tocar um violino desafinado com os refrões de "Lula lá". Não há espaço para retrocessos, aliás, o país parece perecer totalmente num mal espesso e enlameado. 

Por isto, senhoras e senhores, esperemos o desenrolar das próximas delações e das próximas cenas de uma novela pavorosa e destrutiva para ver a que ponto este país de alma mortas ainda apodrecerá sem corpo sepulto. Uns, tal qual Antígona, ou seria a Anti- Antígona, exigem que o país enterre-se com a indecência de criminosos governarem novamente. Pessoas que ameaçaram como Lula o fez o judiciário e a imprensa livre de prisão, visão de uma ditadura socialista à vista. Ordem e progresso nunca existiram neste intervalo. Ou República ou Nada parece ter-se revelado em nada. O que será amanhã? Não sei. Mas o Brasil, flagrantemente, acabou. 


Eustáquio Silva 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venezuela manchada de sangue ...

A quem tem interessado a situação da Venezuela? A grande imprensa, comprometida em culpar Israel pela suposta "escravidão" suportada por meia dúzia de afirmações de que a Palestina é eterna vítima do algoz de todos os tempos? A ONU, que em nada manifestou alguma indignação perante as investidas do ditador Nicolas Maduro que deixa o seu povo com ordenado suficiente apenas a comprar uma cebola fictícia por mês? A cultura "politicamente correcta", a mesma que chama ao Islão de "religião da paz" e persegue o cristianismo como o único mal verdadeiro de toda a história (a não dizer a perseguição clássica dos judeus)? Não, ninguém, de facto, parece importar-se com os vários mortos diários do povo em manifestação contra um presidente que quer eternizar-se no poder. Não há textos, não há "hashtags", não há manifestações. Não vejo grupos ditos de forte voz cujo grito seja "Venezuela Livre" tal qual a "Palestina livre". O silêncio conivente assusta e abandona o povo do país sul-americano a um futuro sombrio. Pessoas morrem e líderes de oposição são aprisionados todos os dias sem que a história presente faça algo para mudar tal cena. Verdadeiros horrores são postos na vala do silêncio, como corpos de todos os tamanhos (homens e mulheres, crianças e idosos) que só cometeram o pecado de discordarem das pretensões absolutistas de um Maduro obcecado pelo poder. 

O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade - partido político socialista, com nome totalmente contraditório e impossível) mantinha forte apoio à situação da Venezuela a qual chamava de "país democrático", o que mudou apenas com o decreto de Maduro de tirar o poder legislativo das mãos de deputados e colocá-lo no Judiciário, em maioria seus seguidores, ou, ainda, nele mesmo. Como hoje em dia é muito mais difícil mentir ao povo e sustentar argumentos contra factos sabidos por muitos, tentam esconder que milhões vãos às ruas contra este regime autoritário. Muitos são presos e agredidos e tantos outros desaparecem ou perdem seu direito mínimo de liberdade e de expressão. Manifestações de chamarem aos adversários daquilo que são abundam na ideologia bolivariana, filha legítima do leninismo clássico do leste europeu. E assim a Venezuela segue cativa e vítima contumaz destes atacantes sem escrúpulos que possuem a célere e costumeira vontade de perpetuarem-se no poder pela força. Isto não é combatido por vários veículos de opinião pública e opositores são mantidos presos ou têm a sua reputação assassinada por uma sequência de actos questionáveis de um governo que assalta um país a ponto deste não ter comida para as pessoas e a criminalidade ser por sobrevivência pura e simples tornando um estado, que deveria ser soberano, em presa fácil e constante de uma série de aproveitadores. Enquanto a Venezuela é manchada de sangue e das campas dos mortos do povo sofrido, alguns preferem chamar de "golpe" o processo de Impedimento da Ex-Presidente Dilma. O que vale a estas pessoas antes é a ideologia do que o bom senso e sempre será assim. Enquanto isto estou à espera das severas críticas a Venezuela. Até quando? Não sei... 


Eustáquio Silva  

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Socialismo é barbárie: notas sobre o seu fracasso ideológico.

Poucos podem dizer, hoje em dia, que o socialismo tenha dado certo. Na verdade, a história, aquela que Fidel Castro, e mais recentemente, Luís Inácio Lula da Silva, invocaram como a franca juíza de seus actos, não pode dizê-los inocentes por defenderem esta bandeira. O socialismo, apesar de sua suposta capa ideológica superior, não passa de um fracasso económico e político e de uma ditadura completa no campo cultural e moral. O que há em solo socialistas é a completa ilusão de um mundo igual por decreto, no qual pessoas poderiam ser "niveladas" em um grupo só, e aqui digamos que só possam ser niveladas por baixo e da pior forma possível. Jogam fora a linha de raciocínio aristotélica de que apenas iguais possam ser tratados de forma igual e desiguais na medida de suas desigualdades assim tratados. E abundam cenários nos quais só destacam-se os preconceitos e imposturas socialistas e não algo que tenham feito de positivo. 

O que há na Venezuela não é democracia, mas a destruição de um país. A perseguição de opositores e o assassínio de manifestantes. A falta de produtos de higiene e comida à mesa das pessoas. Segundo a lógica da publicidade socialista, da luta contra o "capital", tão aludido por todos partidos alinhados aqui, não deveria haver pobres e miseráveis. O senhor Lula vocifera que ninguém fez tantos pelos pobres no Brasil quanto seu governo. Mas estes pobres continuam pobres ou até ficaram mais miseráveis. O que houver, então? O que houve foi que o dinheiro público financiou (como financia mundo afora) os amigos de luta e os chamados "movimentos sociais", que tornaram-se verdadeiras máquinas de produção de bens e poder. Famílias inteiras empregadas em sindicatos. Sindicatos e seus chefes gozando de grande, imensa, infinita riqueza, desmistificando a absoluta falta de realidade do discurso socialista. É imperioso que se diga: Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, dentre tantos, apenas espelham o longo e tinhoso inverno que o socialismo produz. Envenena com barbárie de mortes de toda a espécie. O confronto inútil e a distorção consciente da história para encobrir os seus erros daninhos. 

Certamente a máxima de que "socialismo ou barbárie" pode ser livremente permeada pelo "socialismo é barbárie". Se havia em Rússia czarista uma centena, grande grupo, de "almas mortas", o que dizer do que viu-se com a União Soviética? Que exemplo teríamos de um episódio clássico da história militar no qual Leningrado foi sitiada de 8 de Setembro de 1941 até 27 de Janeiro de 1944, diante da falada força do exército soviético, até que uma cidade quase inteira perecesse à míngua e com graves sintomas de abandono por parte de sua liderança, no caso, o Senhor Estaline, de cuja lembrança nefasta pouco ainda não foi dito. 

Assim a história do socialismo, por longos dias, desde a escrita de suas arestas por Marx e Engels, tornou-se a história da barbárie. Pouco mudou hoje. O que tem de novo daqueles tempos mais bárbaros é justamente o acrescento de uma lógica de socialismo/marxismo cultural, cuidadosamente investido e cultivado por escolas de pensamento como a Escola de Frankfurt, a Escola de Budapeste, Gramsci e outros pensadores, de diversas áreas. Mas jaz ao centro a mesma matriz de cariz ideológico determinado. O movimento de destruição dos pilares ocidentais não é à toa, mas necessário, para já, para que esta mentalidade primitiva e retrógrada assuma posto de poder. Isto incorre em uma grande divisão. O que quer a social democracia é justamente apagar este rasto de sangue e de violência de seus "vizinhos" e por isto são tão odiados, mesmo entre seus companheiros de sala. Vale ressaltar algum destaque a poucas e raras excepções pensantes, mas de um modo geral, e sem sombra de dúvidas, nestes meandros estão soldados de uma guerra única desde os primórdios que está ressaltada na falsa disjunção - ou diria na disjunção inclusiva - de socialismo ou barbárie. Se tens um fatalmente terás o outro, sem escolha de um dos chifres. Então a figura é esta e cabe a nós saber divisá-la sem a máscara oportuna das boas intenções, para vê-la, assim como diz Nelson Rodrigues, assim "como ela é". 



Eustáquio Silva. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Fernão Lopes, a história e a literatura no génio português.

Fernão Lopes (+- 1385 / 1459 ou 1460) é um daqueles nomes ímpares da história ocidental. Dono de uma escrita rebuscada, se calhar a mais bem acabada de seu tempo, e pioneiro da grande safra de escritores portugueses, este primeiro cronista régio e guarda-mor da torre do Tombo significou muito mais. Em seu tempo dedicou suas letras à memória de Portugal. Por ele, por encomenda do rei Dom Duarte, o eloquente - em preocupação devora com a cultura, a lei, e a preservação de seu país - passaram as linhas correspondentes aos Reis Dom Pedro I, Dom Fernando e Dom João I, pai de Dom Duarte. Mas atribui-se com certa razoabilidade a este mesmo autor a Crónica de 1419, sobre a primeira dinastia ou A Crónica dos Sete Reis do Conquistador Dom Afonso Henriques até o Bravo Dom Afonso IV. Seu estilo figura, então, naquele estilo que pode-se chamar de crónica, em voga em toda idade média, e com retoques e assinatura de um grande génio das palavras. 

Na Crónica de outrora, como dito por tantos, estão encerrados elementos de rigor documental, de preocupação histórica, bem como elementos de uma fina e atraente literatura. Este caminho Lopesiano à perfeição de escrita excede o mero encômio de seus senhores, pois ele mesmo declina a dizer do que percebe como bom escritor, bom "estoriador". Diz o guarda das escrituras da Torre do Tombo: Outra cousa geera aimda esta comformidade e natural inclinaçom, segundo semtença dalguus, dizemdo que o pregoeiro da vida, que he a fame, reçebemdo rrefeiçom pera o corpo, o sangue e spritus geerados de taes viamdas, tem huua tall semelhamça antre ssi, que causa esta comformidade. Ou seja, um escritor que faz de sua "fome", ou sua necessidade, uma conformidade para com o que conta, em verdade, está a, apenas, desviar-se da verdade em prol de seu benefício. Desde Fernão Lopes, ou bem antes dele, o ofício bajulador é tomado como negativo. O escrito ideológico é apartado da seriedade. Mesmo com panos literários, usa-os como estilo e não como recurso de género textual, o seu lema é ler, ou mesmo interpretar, com apuro e grande certeza do que diz. Careço, certamente, de ver autor com tamanha forma suave de juntar as palavras. Aquele que precedeu Camões no ofício das boas letras portuguesas, tendo João de Lima e Sevilha um precursor à atura, mesmo que na língua galaico-portuguesa, não está, sem sombra de dúvidas, abaixo da grande responsabilidade que é elevar em muito o nome das letras e literatura portuguesa. Não engane-se o leitor com sua produção completamente voltada à história, pois em seus anos, história e narrativa, boa narrativa, séria narrativa, tinham certa identidade possível e até atractiva. 

Se muito da história de Portugal, em especial de um Portugal dos séculos XIV e XV, está em suas páginas, até o ponto de autores quererem dizer que ele criou personagens como João das Regras, célebre procurador da causa de D. João, então Mestre de Avis, nas cortes de 1433 (como vê-se em teses já defendidas e conseguidas), pode-se dizer que em suas linhas magistrais estão partes sentidas de um pedaço considerável de memória e cultura. Isto não é retirado dele e por isso calha bem ser lido como historiador de grande valia e, também, enquanto grande literato e mestre das letras em um país que acostumou-se com nomes sublimes como este mais ocidental dos países europeus. 

Vale muito a pena acostumar-se com este grande autor e incentivador da cultura portuguesa e lê-lo com a estima, e sem o preconceito evolucionista, que merece por seus grandes méritos em ensaiar a história da forma como o fez. Isto não pode ser tirado dele, de forma alguma. 


Eustáquio Silva. 

sábado, 29 de abril de 2017

Como a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia

Não é incomum notar o quanto a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia. É comum citar-se a classe burguesa como opressora da classe trabalhadora justamente porque deteria os meios produtivos capitalistas. Nesta óptica os erros comuns da visão socialistas estão totalmente escancarados. Primeiro o eterno e velho maniqueísmo de que há o lado opressor e oprimido, vencedor e vencido, bom e mau. Esta visão está manifesta no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Engels para justificar a visão de partido comunistas que deveriam defender. Nesta visão algo deveria ser tido como "vilão" e este algo, conforme vemos em discursos até hoje proferidos por toda a classe socialista, foi escolhido como capital. Seguiu-se daí uma deturpação histórica inigualável, que nem cronistas poderiam imaginar. Em segundo lugar, e com não menos assombro na dispersão frente aos factos, está a mistura do burguês que tomam com o burguês que ocupou realmente a concepção histórica. 
A princípio burgueses são os habitantes dos Burgos, independentes do domínio feudal do centro da Idade Média, os burgueses eram comerciantes, mas não só, oficiais de trabalhos ou artes manuais e determinadas, conhecidos como mesteirais. Nisto reside uma grande diferença da exploração do trabalhador, pois mesteirais eram trabalhadores, na mais profunda significação da palavra. 

A ver este novo modo de dispor as coisas, nós poderemos facilmente identificar o erro de má fé. Por exemplo, na chamada "revolução de 1383" de Portugal, aqueles que tomaram o partido do regedor e defensor do reino de Portugal, e mestre de Avis, D. João I foram aqueles que compunham o grupo denominado arraia miúda, isto é, aqueles que não eram os nobres de primeiro grupo, mas o poobo ou nobres secundogénitos em diante. Este grupo não era senão composto por habitantes de importantes cidades portuguesas como Lisboa e o Porto. Estas cidades, sem prejuízo algum semântico, eram os "Burgos" principais do reino português à altura, junto a Coimbra, mais reticente à legitimidade da escolha de D. João I para sucessor de seu meio-irmão D. Fernando. 

Este é um exemplo apenas, dentre tantos, para comprovar como um grupo ou uma ideia historiográfica pode afastar-se da realidade. Este afastamento nada tem a ver com dedução oriunda da distância cronológica dos eventos. Tem sim a ver com a profunda irresponsabilidade de leitura para poder dar corpo a uma visão estranha de pensamento histórico. Uma vez que o burguês foi tido como o capitalista, por ser produto de seus esforços, por ter vencido em suas realizações profissionais, e isto parece incomodar o socialismo/comunismo sobremaneira, Devido a isto cabe sempre ao historiador honesto não embarcar neste medonho acervo irreal de contos que querem servir de história. 


Eustáquio Silva . 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Machado de Assis, um monarquista brasileiro

Em 1889 o Brasil vivia a instabilidade política de uma república imposta. Poucos dizem isto ou dão-lhe valor histórico, mas a chamada classe intelectual brasileira, formada não por ideólogos de partidos, mas por pensadores, não deixou isto passar despercebido. Apesar do receio de represálias, de dúvidas sobre o futuro e de incertezas acerca do presente, os intelectuais pretendiam posição, mesmo que a estóica ataraxia fosse a escolha. 

Machado de Assis, monarquista, escritor celebrado mundialmente, cronista de mão cheia, não foi diferente. Em um atmosfera em que o seu vizinho do Cosme Velho, ministro de Dom Pedro II, o senhor Barão de Ladário, era vítima de quatro tiros dos oficiais do marechal Deodoro Fonseca, era bom não mostrar-se afoito demais. Não tinha-se populismo. Não tinha-se afectação nem vanguardismo suspeito. O mundo era outro. E o cronista conservador Machado de Assis sabia disto. Não poderia expor-se demais em sua famosa coluna "Bons Dias!" sobre o assunto, embora não deixasse de demonstrar seu profundo dissabor com os anos militares da coisa pública brasileira. Seria só o primeiro período da república tupiniquim que não disse ainda a que veio e que coisas resolveu dos problemas brasileiros de outrora. 

O confeiteiro indeciso sobre qual termo usar em sua placa se "confeitaria da república" ou "confeitaria do império" são reflexo do desconforto machadiano com os ares republicanos. Se a monarquia constitucional era bem vista pelo imortal escritor brasileiro, não poderia dizer-se o mesmo de sua concepção da república, ainda mais no Brasil. Nosso país era um barril de pólvora em mãos pouco hábeis à administração. Aos grandes produtores e agricultores brasileiros era interessante as liberdades possíveis na ausência do poder moderador. Mas o "bruxo do Cosme Velho" sabia, conforme sua visão aguçada e profunda dos factos, que aquele remédio seria assaz amargo ao povo bestializado brasileiro. A que preço viria esta inovação? Que interesses resolveria? Quais diferenças demasiadas sociais seriam definitivamente solucionadas? Ficava para o cronista carioca uma dúvida cruel. 

Como meteu à boca do Quincas Borba, em Política não se perdoa nem se esquece nada. Assis seria com esta declaração forçada e impopular de república. A monarquia jovem brasileira precisava passar pelos testes de fogo que a república viu-se reprovada em suas duas faces a democracia e a ditadura. O céu deste tipo de liberdade é demasiado duvidoso, ainda mais em cabeças tão refinadas como era a de Machado de Assis. Por isso o monarquista Machado poderia muito bem ser tomado como um ponto de inflexão a esta aceitação imposta dos republicanos desejos de perfeição. A história de personalidades. A construção de um erudito sobre o que está a sua volta não é, deveras, algo que possa-se esquecer. Por isto digam o que quiserem, mas é mais pertinente seguir ao Machado do que a outrem menos cuidadoso com os ventos de liberdade que escravizam mais do que se pensa. 


Eustáquio Silva 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Monarquia no Brasil: uma mudança para melhor.


"O povo é bom. A elite é ruim. Mas se o povo é assim tão bom, por que ele não muda a elite, assim tão ruim?"
José Murilo de Carvalho. 

Com esta frase do célebre escritor do texto Os Bestializados eu inicio a minha provocação: por que não uma monarquia no Brasil? Daí poderemos visualizar algumas respostas, entre irónicas e de desdém, como a de uma perfeita insanidade ou a de um anacronismo completo. Em tempos de um ministro das Relações Exteriores, como o senhor Aloysio Nunes, que chama de "imigrante" a um herdeiro da casa imperial brasileira, nada pode ser ignorado na ignorância das pessoas quanto ao monarquismo. 

Mas cabe a um provocador ser um legítimo conhecedor daqueles que incita e daquilo que traz à tona, senão as coisas tendem ao riso histérico e ao esquecimento. Por que não um caldo histórico? Mesmo que de passagem, nós precisamos levar em conta a razão mor de uma espreitadela na memória. 

Em 1889 o que houve não foi a proclamação de uma república, mas a confirmação de um golpe na monarquia, na jovem monarquia brasileira. Quando os militares, capitaneados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, privaram a Dom Pedro II do Brasil o exercício do poder, não lá sabiam o tamanho do acto que realizavam. Muito menos o povo. O mesmo historiador da epígrafe, no livro supracitado é bem claro quanto ao efémero papel deste brado entre os anónimos brasileiros. Por anos a fio compreenderam aquele evento como mera paragem militar ou como algo incompreensível. Diante da estranheza da causa não é de admirar-se os desvios do efeito. Neste pormenor o que sucedeu-se a 1889 foi uma sucessão de desmandos e desditas que culminaram com a maior crise política e ética de nosso país. 

Nem enquanto parte do reino português e nem como império, o Brasil foi tão roubado e envergonhado. O mesmo chanceler brasileiro e seu partido o PSDB, como também os demais, sob a batuta do Partido dos Trabalhadores, assaltaram as riquezas do país por décadas. Nada os impediu de transformar o povo brasileiro naquele que menos sabe qual a dimensão de seu poder. A Constituição significa apenas um pedaço sem sentido de papel cuja palavra democracia somente quer dizer uma fobia alarmante de largar o poder. A lógica é simples, quase tautológica: se o poder emana do povo (fórmula mor de Rousseau) e eu represento este povo, logo perpetuo-me no poder, através de artifícios e publicidade, mesmo por corrupção e a certeza da impunidade, sobretudo esta derradeira, porque o povo não "muda". Por intermédio de falsas dicotomias e intermináveis apelos ao cinismo, os políticos, desde a "reabertura" apenas planeiam como melhor usurpar o bem público. O povo, tal qual em finais do século XIX, nada parece saber e continua a ser enganado pelas aparências. 

Insistem em fazer da realidade um baú de mentiras. Fazem com que todos acreditem que só na democracia, só nos ventos republicanos, existe verdade. Incutem nos incautos e nos iniciados uma ideia de que monarquia é atraso, é tirania, quando desde Aristóteles podem até ser próximas, mas não equívocas, e assim por diante. O rescaldo disto tudo é que a crise política e económica brasileira são, na verdade, reflexos da imensa irresponsabilidade moral e social que existe entre nós. Uma visão míope e bem afeita aos maneirismos de nossos tempos. Uma visão que acomoda a irrealidade do socialismo. Algo que cheira a mofo, mas todos parecem conformados em preferir do que algo que realmente mude porque resgata muito do compromisso moral perdido. 

Quando vemos a um Dom Pedro II imerso no dever cívico de seguir uma Constituição correcta e bem disposta ao cidadão de nossos dias, nós perguntamos: como chegamos a este ponto? É fácil perceber. Nossa "revolução de 1789" deu-se em 1889, com um século de atraso e sob a batuta de um golpe. Este imenso emaranhado de coisas fez com que o mal amanhado de nosso tempo fosse adornar de democracia todos os autoritarismos e transformar em perigo tudo o que, de facto, tenha dever a cumprir com os acontecimentos históricos. Preferimos uma república do Caixa 2 a uma monarquia séria, como sempre foi, com poucas excepções, mundo afora. Não é anacronismo, mas conservar aquilo que é bom. Ninguém pode acusar a um monárquico de ser saudosista. Não é o caso de repetir "88" sempre que alguém mal usar o termo "democracia" ou "república". Trata-se de acomodar com alguma ponderação aquilo que melhor posso chamar de termo medianeiro moral. Será que é difícil enxergar assim? Ou precisaremos de um país totalmente caído para perceber a isto? 



Eustáquio Silva 

domingo, 16 de abril de 2017

A corrupção criou um Brasil diferente - PARTE 1

Este texto é acima de tudo um lamento. O Brasil afundou totalmente na corrupção. Da corrupção quotidiana (até mesmo louvada como virtude na frase "o mundo é dos mais espertos") à corrupção institucional que apodreceu os poderes republicanos tupiniquins. 

A verdade é que nos últimos trinta anos, sem trégua, o país foi roubado. O povo foi assaltado e viu criar-se, com o PT e empreiteiras como a Odebrecht, mais a companhia de todos os partidos (de PSDB, DEM até o PC do B, PSB, PDT e REDE) a república cleptocrata do Brasil. 

Certamente as bombas das delações premiadas, o cinismo dos políticos e o envolvimento da Imprensa, da classe artística, de sectores da sociedade, até de religiosos, neste esquema assusta e não tem precedentes reais no Brasil. A história brasileira terá outra forma de ser contada. Os livros ideológicos não darão conta de garantir mitos como Lula, o conhecido "pai dos pobres" que agora, nos depoimentos, tornou-se o AMIGO. Neste sentimento de incredulidade pairam todos os ex-presidentes vivos enquanto possíveis criminosos. E eu digo possível porque não quero ter problemas com estas pessoas ao terem surtos de santidade doentia. 

A Lava Jato desafia uma suposta bipolaridade criada entre PT e PSDB. Expõe que acordos, compra de votos, abusos de autoridade e má fé e imoralidade sempre foram marcas da chamada "democracia" em solo brasileiro. A absoluta incultura do brasileiro ajudou a imprensa e os corruptos a manter em silêncio por tanto tempo o fruto de seu roubo. Agora acordar é difícil. O povo foi ensinado a viver à base de fortes remédios controlados que tiram totalmente o sentido de realidade de seu usuário. Anestesiam a sua percepção das coisas. Anulam ao raciocínio. 

Em outros textos irei, com mais informações e esmero, dizer como o Brasil será outro após estas operações da Polícia Federal, Ministério Público e parte do Judiciário. Pode-se adiantar que formadores de opinião não terão vida fácil. Agora é difícil demais fazer com que qualquer pessoa consciente dê crédito à cantilena de golpe, de medo de Lula, de ódio aos pobres e ao PT. Prova-se que todos estão nos mesmos porões amorfos e imundos da realidade corrupta brasileira. PT, PSDB, PP, REDE, DEM, PSB, PDT, PSOL, PC do B, dentre tantos, são todos reflexos do colapso republicano do este sim golpe de 1889. 

Nada foi a um nível tão baixo e apodreceu tanto quanto a esperança do povo brasileiro. Todo ido ao ralo e a história não pode ignorar tal fato. As próximas gerações de formados em história no Brasil têm o dever moral de livrarem-se da doutrinação e parar de seu panfletismo socialista. Não há espaço para distorção indecente da história. Pensamento crítico deve vir acompanhado de valores sérios e não de selectivismo delirante. A história não irá perdoar ninguém. A história é feita pelo discurso sério de homens que viram e ainda verão o país virar as costas para seu povo num esquema internacional sem precedentes de compra de tudo, menos da dignidade e da cabeça tranquila de alguns gatos pingados que ainda podem mudar este país chamado Brasil. 


Eustáquio Silva 


segunda-feira, 10 de abril de 2017

História Contemporânea - A cada conto contado um ponto


Não há ser humano razoavelmente informado que não tenha ouvido, nos últimos meses, algo aterrador sobre a Síria. Que não tenha lido sobre as ofensivas do Estado Islâmico Europa adentro, mesmo com toda a blindagem da imprensa e de partidos socialistas e comunistas das intenções da chamada "religião da paz". Muitos também acusaram ao presidente recém eleito Donald Trump de ser um animador de uma guerra reflexo da vacilante e débil política externa do seu antecessor Barack Obama. Mas numa coisa é-se uníssono, desde os mais bem intencionados até os que estão completamente equivocados sobre a realidade: conta-se a história do oriente médio hoje como a de um cabo de guerra emocional. Cada um assume um lado e todos os lados são contra Israel que, nesta imensidão de terra (mapa acima) é o único pedaço não muçulmano e constantemente atacado pelos demais. 

A Síria vive uma das mais terríveis e sangrentas guerras internas conhecidas no mundo. De lados igualmente violentos e nada dispostos a poupar o povo. É bem verdade que em uma guerra sempre haverá perdas consideráveis de inocentes incapazes de fugir dela. Mas o que há ali é algo maior: de um lado a ofensiva rebelde, em muito treinada e financiada pelos EUA, nos últimos anos, cuja única vontade é o poder. Aparentemente, em uma lógica simplista, seriam os mocinhos, mas em nada merecem esta alcunha. Movimentam-se livremente de acordo com o sabor dos ventos de seus desejos. Não pode-se esperar que estes rebeldes melhorem a condição do país. Eles são mais um eco dos interesses políticos de potências externas por longos anos do que um potencial representante dos anseios populares. Esta sensação dá-se cada vez que este grupo, bem afeito ao anonimato e à imprecisão, sobretudo quanto a seus objectivos, são questionados e aparecem no cenário da imprensa internacional. 

O ditador, condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo então presidente Lula no Brasil, Assad, que sucedeu ao seu pai num governo que não aceita respeitar regra alguma política internacional, é claramente um lado ruim. Outros grandes aliados de seu regime são a Rússia e o Irão, que recentemente teve financiamento para supostamente abortar seus planos nucleares por parte da ONU. ONU que é outra página à parte de aumento do conto sobre a Síria. Este eixo que apoia ao ditador tem responsabilidade no ataque com armas químicas sobre a população que fez com que os EUA reagissem dias atrás. A realidade é que não seria a primeira vez que o ditador sírio teria usado armas químicas contra seu próprio povo. Este episódio é desumano, pois denota um governante que mata a seu próprio povo da forma mais cruel se sua autoridade for questionada. Isto não é devidamente mostrado na media. A então candidata à presidência dos EUA, a democrata Hillary Clinton, em momento algum de sua campanha subiu o tom nestas questão o bastante para dizer que mudaria o desastre de seu colega neste campo. Obama simplesmente foi desacertado em tudo que fez em especial neste médio oriente. E nada foi efectivamente feito em relação a isto, ao menos em âmbito dos órgãos internacionais e grande imprensa mundo afora. 

E, finalmente, na parte final deste enorme puzzle, está o Estado Islâmico. Atacou recentemente a base dos EUA na Síria. Curiosamente não o fez em oito anos da administração Obama, mas em meses da administração republicana já foi marcar o seu território neste país. O Daesh move-se com crueldade já conhecida. Não alia-se ao ditador sírio, porque quer a morte deste também. Não alia-se aos já tratados rebeldes e não alia-se a qualquer denominação judaico-cristã. São os grandes responsáveis pelo clima de primitivismo e extrema violência que assistimos com terrorismo mitigado mundo afora. Nestes dias mataram centena de pessoas cristãs aquando da semana de Páscoa, simbolicamente o coração da fé cristã mundo afora, sem pudor algum. A história oficial de grandes meios de comunicação selecciona claramente o que falar deste grupo. Aquando do atentado ao jornal de sátiras francês Charlie Hebdo, única tentativa de fazer-se piada com Maomé, com resultados conhecidos, criou uma comoção geral. Em Egipto, nas igrejas atingidas pela acção do EI, pouco fala ou usa de linguagem questionável e demonstra toda o desconforto com a situação. 

Mas tudo isto é visível pela falta de controlo que hoje em dia tem-se com relação à verdade. Todos preferem inventar e mentir sobre a história actual ao invés de mostrar ao povo aquilo que realmente há. Hoje em dia preferem distorcer factos e esconder partes consideráveis da narrativa com o intuito de fazer bandidos e eleger mocinhos. A estratégia é muitíssimo conhecida. O velho "assassínio de reputações", junto à eleição não justificada de um lado como eterna vítima (basta ver a violência da campanha pela liberdade da Palestina em relação a Israel) e de outro como algoz e, por derradeiro, do silêncio e curva moral sobre o lado a atacar que temos a noção do fosso que estamos. Ninguém está imune a isto. É lamentável, mas é realmente isto que é visto. A Síria segue a linha da vez. A Venezuela, a seu turno, assim como Cuba e Coreia do Norte, já foram assim. O Irão já foi tentado ser visto como avançado, mesmo que ainda a condenar mulheres a serem condenadas por serem abusadas sexualmente, entre outros atrasos que feministas preferem calar-se. Mas isto é sinal de historiadores sem carácter e com interesse no jogo. Escondem-se por detrás do mandamento de Habermas de que não há conhecimento sem interesse e aproveitam para fabricar informações e criar um mundo artificial. Este mundo imagem de um simulacro, de uma sombra, de uma dobra reflecte, opaco, nas lágrimas sírias e na fraudulenta política humanitária de imigração como grande salvação da pátria. Isto é populismo da pior espécie. Isto é desfazer de forma irracional a tudo que se pode ver. Retrato infiel de um tempo que antes quer morrer ignorante do que saber o que realmente está lá fora. 


Eustáquio Silva  

terça-feira, 4 de abril de 2017

A história no umbigo da revolução francesa

Há as histórias que nos contam, cheia de lacunas documentais e no calor de inspirações políticas, e a história dos factos e pessoas. Algo que orbita entre o sonhado e o real.

Concordo, em algum grau, com o historiador francês Paul Marie Veyne quando este diz que a história é um discurso das especialidades, e não do universal.  Entretanto, isto não autoriza-me a perceber a história enquanto universalização de uma visão apenas minha ou de um grupo ao qual pertenço dos eventos. Alguém que tente universalizar a história decai em um erro grandioso de assassinar a sua força motriz. Neste campo está e orbita a aura sacrossanta da Revolução Francesa

Muitos a colocam como marco iniciador, ou mais propriamente processo iniciador, da Idade Contemporânea. Por suas ideias e pela sua forma de pensar completamente diferente do Antigo Regime que queria substituir, teve em seu ápice de 1789 uma reviravolta que muitos chamam de vanguardista da história. Mas por qual isto se dá? 

Roger Chartier, em seu livro As origens culturais da Revolução Francesa (em especial no capítulo dedicado as relações existentes entre o iluminismo e a revolução) distribui aquilo que acha ser um combinado de razões que culminaram com a revolução:

- As ideias iluministas circulavam da elite à burguesia, da burguesia o povo com enorme facilidade. Vale ainda ressaltar que os diversos e históricos processos de desentendimento entre nobres e a realeza, cada vez mais absoluta por toda a idade moderna, agravou enormemente a convivência e evidenciou grandemente a insatisfação dos primeiros para com os monarcas. Não seria são ou honesto dizer que a execução do rei Luís XVI em 1793 em França, derrubando o último centro forte do antigo regime, não teve motivações de grupos sociais e não apenas fagulhas da ideologia progressista do iluminismo. 

- Em Paris o movimento de difusão dessas ideias foi centrífugo, isto é, partiu do centro, do coração da "cidade luz", em direcção ao que chamaríamos de periferias, o que evidencia o ponto anterior quanto ao critério económico da classe social apoiante. 

- O iluminismo, enquanto ideologia, enquanto mote claro de discordância frente ao absolutismo, citado no ponto primeiro, firmou-se como um sentimento do povo de pretensa libertação. Aqui estão em embrião o sentimento político mor da democracia, que é o de que estamos melhor quando alguém representa-nos no exercício do poder ou quando nós mesmos o exercemos. Não é difícil lembrar que com a propensa incompatibilidade conceptual entre liberdade e igualdade em simultâneo, a ditadura de um pensamento hegemónico sobressaiu-se, de facto, até que a ditadura notória no terror jacobino ficou clara. 

Ademais, a somar-se a estas considerações de Chartier tem o facto comum de que foi na revolução que foi a camisa de força do espectro partidário em "direita, esquerda e centro", que assassinou completamente pensamentos contrários. Os rótulos surgiam com força e isto condenou fortemente toda a política, toda a consideração social e jurídica, praticamente toda as ciências sociais e sociais aplicadas a orbitar em torno do umbigo da revolução francesa. 

Nada passou à mítica história das coisas com tanta força do que o fascínio de muitos por esta época histórica. Mesmo o rei frustrado, citado pelo pensador conservador português João Pereira Coutinho, que repetia em delírio "oitenta e oito", como apelo desespero pelo que tinha antes da revolução francesa, nada mudou. O que vemos hoje é uma incapacidade completa de pensar-se para além de 1789. De tal forma as coisas foram-se dando que posso bem chamar esta época histórica de "heliocentrismo contemporâneo" através do qual ninguém vê. E complemento ao dizer que por detrás disto nasce o elogio à revolução como vanguarda, um contrasenso lógico, diga-se de passagem, que mesmo alusões como a de Edmund Burke e Alexis de Tocqueville fizeram abrandar. Este desejo pela ruptura pode ser lido como aquilo que separou o pescoço do monarca francês de sua cabeça. Como símbolo violento de que o mundo agora perdia uma forma de pensar rumo a algo que tornou-se mais despótico e impositor do que qualquer déspota ou tirano que o mundo tenha conhecido. Até então o que vivemos é um longo século XVIII, um tempo ainda "iluminado" pela imposição da liberdade, igualdade e fraternidade. 


Eustáquio Silva

quinta-feira, 30 de março de 2017

O objectivo do Blog

Por que este blog existe? A um historiador não é diferente ter que responder pela origem e expressar alguma coisa acerca da causa de dedicar um pouco de seu escasso tempo em publicar mensagens virtuais aparentemente diferentes de seus termos de estudo. Este exercício ou actividade extra, entretanto, nada mais é do que aquilo que todo e qualquer estudioso sério deve ter: bases epistemológicas (e não ideológicas). Limpar e definir esta fronteira é, ao nosso ver, o mais claro filtro do historiador com ou sem ideologia. E que fique claro que somos realmente daqueles que pensam que história não está no mesmo sítio que ideologias. Infelizmente em diversos países história tornou-se sinónimo de doutrinação, de desinformação e de discursos de cunho político. O discurso histórico foi contagiado pelo marxismo cultural em tão grande escala que pode-se dizer que é o nicho por excelência de entrada deste aparelhamento mental nas escolas, na sociedade, na cultura em geral. 

Exemplo desta transformação (para pior) da história é a frase inicial do Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels (1848). Lê-se neste texto por natureza avesso a tudo que é considerado sadiamente como história que a história sempre foi uma luta de classes, opressores e oprimidos, vencedores e vencidos. Esta clara visão polarizadora da disciplina história molda claramente esta ciência (sempre com certo receio a não afirmar este estatuto científico absoluto da história, dado aos movimentos positivistas do século XIX, por curiosidade o mesmo século do texto marxista) para ler aquilo que se quer daquilo que já se passou. Não é simplesmente reescrever a história, pois todos sabemos isto ser impossível, mas é reescrever a interpretação dos factos e acções passadas de acordo com uma ideologia bastante demarcada: a do proletariado, a do comunismo, a do socialismo lato senso. 

Certamente a continuidade que o marxismo cultural deu ao velho marxismo parte de pressupostos semelhantes. Walter Benjamin fala em que até agora contou-se a história dos "vencedores", não obstante é preciso, para já, começar a contar-se a história dos "vencidos". A bipolarização anterior foi remodelada, porém não deixou de existir. Este partido de assumir lados na história é o que determina hoje esta disciplina. Um professor assassina reputações assim como reconduz outras à santidade de acordo com seu modelo político. Por isto que somente historiadores claramente ligados ao establishment ou ao status quo que foi imposto pode relatar a memória de um povo, de um grupo social, de instituições (eclesiásticas ou não) e assim por diante. Até hoje a história medieval, disposta em pouco mais de quatro páginas de um livro escolar, resume-se a palavras chave como feudalismo, como inquisição e como atraso ou "idade das trevas". Estas concepções já são nossas conhecidas desde o Iluminismo e acompanham-nos até hoje justamente pela porta de entrada desta ideologia dominante. Aliás foi a Revolução Francesa e suas consequências aquilo que tornou famosa a posição exageradamente interessada também na história. 

Se algum dia a história foi mítica, e de certa forma, pelas mãos de muitos ainda continua a ser, e passou a ser necessária como repositório de nossa cultura, de nossas acções e tudo o mais, ela passou a despertar a cobiça de oportunistas calejados em ser politizados cuja única intenção é justificar as suas crenças. Este sequestro, este rapto da história para fins ideológicos deve e tem de ser sempre desmascarado. E para mim este blog, de forma directa ou indirecta, pretende ser mais um instrumento neste favor. Não trata-se da ideologia de não ter ideologia. Trata-se da necessidade imperativa de fugir à vala comum. De sair do mesmo. De recuperar a história de todas as distorções e mentiras em que a meteram conscientemente. Tomara que seja possível recuperá-la para ser discutida e nisto conto não só com grandes mestres, mas com enormes ajudas todas estas relativas a vocês leitores e críticos. Se em algum mundo possível é necessário que seja atento este é no que refere-se a como contam para nós sobre o passado. Pois como diz-nos o historiador francês da nobreza, professor Aurell: só assim podemos dominar ao presente e projectar ao futuro. 



Eustáquio Silva