terça-feira, 25 de julho de 2017

Lula, o mito da desonestidade.


Anteriormente eu iria falar apenas da condenação - primeira condenação de um ex-presidente, nunca na história do Brasil isto aconteceu - e do sequestro legal de seus bens, em sentenças do juiz federal Sérgio Moro. Todavia, depara-mo, incrédulo, com o que Lula disse: a propina foi algo que os empresários inventaram para culpar os políticos. Como se não bastasse o que houve (e ainda falta ser descoberto), o senhor Lula insiste na tese de uma inocência que só pode oscilar entre a esperteza a la Macunaíma e a insanidade e vitimismo típicos dos socialistas/comunistas ao longo da história.

Ele é fruto de um país doente. Ele só tornou-se este mito que todos cultuaram (e alguns ainda cultuam) baseado em três pilares fundamentais: 1) a ignorância, analfabetismo funcional e/ou total do povo brasileiro, 2) A miopia política fundada em uma série de mitos como o da falsa história socialista e bolivariana da América Latina, a necessidade de ideologias revolucionárias travestidas de populares, quando são bem mais genocidas e sem moral alguma e 3) Os velhos males de uma república brasileira, de uma suposta democracia e de uma natureza jurídico-política totalmente distorcida. Quando se liga a televisão e vê-se a quantidade de mentiras que dizem ser história podemos ter certeza da profundidade deste poço. Em um país com estas características Lula fez-se o que é.

Tal qual um bufão, tal qual um mestre em sedição e toda sorte de conchavos e joguetes, Lula ascendeu no caos e no molho político de um país perdido. À sombra de um presidente inventado, que foi Fernando Collor, este foi o prato do dia. Depois de um presidente impopular, e igualmente questionável que foi Fernando Henrique Cardoso, surgiu como alternativa possível. Eis o segredo de Lula: um cidadão patrocinador da ignorância, da aversão ao conhecimento e da pobreza como condição eterna do indivíduo. Com o petismo de Lula, se é que as pessoas não perceberam ainda, o pobre nunca deixa a condição de pobre. O pobre é ungido no consumismo, no populismo barato, no discurso oportunista e desonesto. A expressão "avanços sociais", "conquistas do povo" é a maior mentira do legado Lula. O verdadeiro legado de Lula é um triplex cuja posse atribui cinicamente a sua mulher falecida, no melhor estilo de um esperto não daria o "vacilo" de mostrar aquilo que tem. O legado de Lula é uma empresa como a Petrobrás falida, um BNDES emprestando dinheiro e enriquecendo republiquetas bolivarianas. O legado de Lula é um país mergulhado no caos assombroso e na violência sem fim, que ele insiste em jogar no colo da sua criação Michel Temer. Dilma, a sua outra contribuição à política brasileira, somente acabou, com a sua inépcia, o resto do Brasil que já estaria comprometido pelo jogo lulista de regresso ao poder.

Um ditador em potencial. Um populista cuja moral permite que ele enfrente o judiciário e faça o mais ridículo, que é ignorar provas e factos em troca de uma retórica das mais rasteiras possíveis. Lula é o ocaso do Brasil. Um retrato fiel do anti-Dorian Gray. Alguém que torna-se cada vez mais culpado sempre que alega inocência. Aquele que transforma o velório da mãe de seus filhos em um espetáculo midiático. Alguém que é capaz de qualquer coisa para colocar o poder em suas mãos. Assim é que se faz um mito de desonestidade, tão comum em um país onde todos se vangloriam de ser relativistas morais e "espertos" sempre que podem. Um país de natureza podre e que louva a impunidade e o mal caratismo só poderia ver em Lula o ídolo mor. Eis a questão.


Eustáquio Silva. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

Como se engana um aluno sobre história.

A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, numa palavra opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação revolucionária, da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em luta.

Marx (e Engels) começam assim o famoso Manifesto do Partido Comunista de 1848 e marcam assim a maneira como todos os historiadores, cônscios ou não da influência marxista, parecem promover a visão que possuam da história em si. Uma espécie de alienação coletiva promovida por esta função inunda destrutivamente a lição de história e forma o maior produto de engano e de profundo desconhecimento já confecionados pela cultura humana. São verdadeiras legiões de professores doutrinados e gerações tornadas ignorantes quando resumem a tudo entre esquerda e direita, entre bons e maus, mocinhos e bandidos, em suma, nestas tão faladas duas classes sociais, independente se existam outros atores sociais envolvidos. As minorias sociais de hoje ganham o adjetivo "oprimidos". O negro é oprimido. O gay é oprimido. A mulher é oprimida e assim por diante. Por outro lado se há oprimidos, pela lógica em voga nesta fôrma de pensamento, haverá um opressor. Então, o branco é opressor, o heterossexual é opressor, o homem é opressor e assim por diante. Imaginem, por conseguinte, que esta falácia de generalização identifica o mundo por estas lentes e, conforme seja o caso, constroem a história inteira a partir destas visões distorcidas e defeituosas. Este é o legado da doutrinação na narrativa e edificação de nossa memória. Os factos não mais interessam e sim os despistes e as ilusões úteis que são criadas. Como não reconhecer este modus operandi em nossos dias? Como não olhar para uma sala de aula do Brasil, ou de outros países, e perceber, por exemplo, que o cristão é o lado ruim e o islâmico o lado bom? Ou não identificar as destruições de reputação e descasos morais tendenciosos que diferenciam este "nós e eles"?

Esta velada, mas plenamente consciente, reconstrução da história, em verdade, sempre foi a reconstrução do mundo feita por um pórtico privilegiado. Nada é mais eficaz que você usar do meio mais efetivo de controlo de opiniões e ideias do que fazer tais ideias surgirem como lótus ideológica da lama que foi uma história forjada. O mundo contado por estes meios e com estas cores, parece-nos ser idealmente conferido para tal fim.

Por estas e outras é tão proveitoso usar a história como instrumento de mentira ideológica. É fecundo minar a verdade dos eventos e sobre as pessoas e construir mitos e consumar heróis. É fácil, relativamente fácil, demonizar alguns e santificar outros e esta tática é plenamente usada, sobretudo quando o assunto é tornar alguém acima do bem e do mal. Será que não lembram os meus caros leitores de pessoas como Che Guevara, Fidel Castro, Hugo Chávez, dentre outros?  E como não lembrar de verdadeiras destruições pessoais sofridas por quem não faz parte deste establishment?

Não custa nada perceber que foram anos e anos de fixação da história como alvo principal. Quem sabe o que é enfrentar uma sala de aula sabe o que é representativo dominar o discurso histórico, sobretudo porque sabe da influência da história na perspetiva das coisas e na elaboração da visão de mundo de qualquer pessoa. Mesmo que não haja interesse direto das pessoas pela matéria história, estas fazem diversos usos de suas ferramentas no quotidiano e o trabalho diuturno destes engodos, destes enganos tornam-se eficazes justamente porque são inseridos quase que subliminarmente na cabeça de gerações de jovens. E não adianta atacar a superfície. Não consegue-se evidenciar tais males apenas dando a vaga ideia de que as coisas resumem-se a confrontar economicamente ou politicamente as coisas. Tal submundo está na sala de aula. Na qual palavras como a de Marx e Engels que iniciam este texto, tornam-se dogmas. Ninguém hoje percebe a história de outro jeito. Ninguém hoje parece perceber que existe história fora deste vidro. Eis o grande mal causado pelo marxismo em geral e pelos marxismos em particular, e não só. Por isto é pertinente repetir o título desta mensagem, pois é extremamente verdadeiro e certeiro: como se engana um aluno sobre história.


Eustáquio Silva  

sábado, 17 de junho de 2017

O século XXI e a história em fragmentos


Posso começar este texto com uma assertiva: não é possível, hoje em dia, contar uma história em mais de um parágrafo. Nós vivemos a mais pálida e imprecisa época para conhecer-se a história e poder produzi-la. Vivemos um tempo de desconstrução gradual de uma narrativa para prender-se aos fragmentos, às migalhas ideológicas, ao pouco caldo de uma crónica ignorante sobre a realidade. E esta aversão ao conhecimento dos factos e das pessoas reproduz um panteão de opiniões falsas e de má fé científica, sobretudo no discurso histórico. Senão vejamos alguns exemplos claros deste ponto.

Causa-me impressão a imprensa, os cursos de história, as universidades e o grupo denominado "esquerda" em todas as suas vertentes produzir afirmações inválidas e mentirosas sobre tantos assuntos. Um deles é a não relação de Israel com Jerusalém. Parece-me uma piada de péssimo gosto ter que falar sobre isto, mas é isto que ocorre realmente em lições ideológicas sobre história. O movimento pró-Palestina engole a realidade. Distorce a realidade. É uma sequência de falácias produzidas com um único intuito: legitimar os chamados "vencidos" da fantasia que Walter Benjamin chamou de história. Este pensador marxista, inclusive, é o responsável por sandices deste género que foram ponta de lança para uma ignorância grotesca sobre o passado, sobre o rasto cultural de tantos séculos e milênios. Este suposto filósofo foi um dos mais destacados destruidores de ciência que o ocidente já produziu, sob a aura de intelectual refinado e o panteão socialista criado.

Por conta disto Israel, o sionismo de um modo geral, o governo israelita em particular, sofrem continuadas acusações dos media. Muitas mutilações cognitivas são produzidas e o resultado é uma sucessão de horrores como o desfazimento do Estado de Israel a devolver-se a Palestina toda a terra. A ONU é ativa mentora deste domínio, com a ajuda do ex-presidente dos EUA Barack Obama. O que não encaixa é que na história da criação do estado israelita está a mesma Organização das Nações Unidas que agora quer extirpar da realidade aquilo que ajudou a tornar existente. Este é um tema que por si merece uma mensagem neste blog em particular. Mas à guisa de exemplo vale a pena deixar bem demarcada esta contradição clamorosa acerca de tantos assuntos e posturas que este mundo divorcidado de seu pretérito produz dia a dia.

Os mitos, os heróis criados e as farsas contadas várias vezes até tornarem-se verdades são um capítulo à parte. Zumbi dos Palmares ganhou dia de reflexão, mesmo sendo um dos mais cruéis perseguidores de negros e outras etnias de seu tempo. Lampião ganhou a aura de protetor dos pobres quando, em verdade, é apenas um criminoso que tinha grande sede por sangue. Marighella, exímio terrorista, e mais lido pelos terroristas islâmicos, em seu Manual de Guerrilha, foi alçado ao estado de herói sem mérito algum. Apenas porque estes vultos brasileiros agradam aos culturalistas estão nesta lista. Santificados que foram. O  Papa Francisco produz uma legião de fãs entre os não religiosos apenas porque tenta fazer um discurso ecuménico, em muitas vezes contrário aos dogmas da Igreja que preside, mas Bento XVI ou João Paulo II (este santo) são vistos com péssimos olhos. João Paulo II, por sinal, viu de perto a queda da sua Polônia para o regime sanguinário de Moscou. Mas isto não veio ao caso. O que importa é chamar ditadores, como o recém falecido Fidel Castro, de marcas pessoais de luta pelo povo. Até mesmo este autoritário cubano falou mais de uma centena de vezes a frase que simboliza seus companheiros socialistas e comunitas: "a história me inocentará".

Assim é feita esta história simpática e de migalhas. Não há preocupação genuina com o facto, com a verdade, pois esta é relativa. Não há uma lógica interna. Não há uma distância considerável e recomendável do objeto para que o cientista tenha alguma credibilidade. Cursos de História - em países como o Brasil, por exemplo - produzem iniciados apaixonados e com uma crença indecorosa na cartilha marxista e derivada deste - como o engenhoso edifício de areia gramsciano. O que menos faz sentido é o que é seguido. O que menos faz sentido é o determinado como certo. Faz grande impressão o quanto perde-se tempo com a mentira em nossos dias. Mas é o que sobra em terreno por onde a Escola de Frankfurt apartou a todos do bom senso.

Por estas e outras: o século XXI é o século líquido no pior sentido. Inverídico e totalmente cru. Sem respaldo real e completamente insano. Eis a realidade desmontada. Eis o fim de nossa história: não ter sentido algum.



Eustáquio Silva.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Por que o brasileiro não conhece D. Pedro II?


Não seria erro ou exagero dizer que o brasileiro não conhece a história de seu próprio país. Poderíamos elencar dois grandes motivos a tal ignorância e, ainda, darmos um exemplo claríssimo de tal efeito da (des)educação que o Brasil sofreu e sofre todos estes anos. Agora permitam-me usar Portugal como contraponto em uma experiência vivida por mim, não há muito tempo.

Estava eu numa cafetaria portuense à espera de minha meia de leite quando fui surpreendido pelo teor da conversação do dono da casa e dois de seus clientes. Eles falavam sobre o rei D. João I, Mestre de Avis. O dono da cafetaria disse com ar professoral:

- Você sabe o porquê de D. João I ter em sua montaria uma corda?

- Não, respondeu o homem indagado.

- Ele o tem porque demonstra o domínio da razão sobre a força. E você bem o sabe que foi D. João I que mais teve que conviver com a força e com a turbulência para pacificar e manter Portugal livre de Castela...

- Sim, é verdade, respondeu o homem com ar de conhecimento adquirido.

Eu, que lá estava a tomar meu café, nesta altura, peguei meu bloco de apontamentos e registei esta conversação, pois é de meu profundo interesse todo o conhecimento que exista sobre história portuguesa e sua variação na história brasileira. Aprendi ao tomar café muito sobre um capítulo anedótico da história de Portugal em uma saída fortuita de casa, sobretudo porque foi a poucos metros de onde moro.

E isto seria possível no Brasil?

A partida sim. O Brasil, em relação à sua brevíssima casa imperial só tem dois representantes, a extrair os regentes da menoridade de D. Pedro II. Este foi imperador de 1841 a 1889, aquando da Proclamação da República. O seu pai D. Pedro I do Brasil (e D. Pedro IV de Portugal) governou muito pouco tempo o Brasil (cerca de nove anos) e este tempo não lá foram de grandes destaques de governação. Mas, conforme a história conta, o seu filho deixou um legado de grande estadista, de grande rei, de cultura vastíssima e de melhorias gigantes no país que encontrara. Mas e por qual razão nada disto passou ao conhecimento público? Aí entram os dois motivos sobre-citados.

Em primeiro lugar o Brasil não parece ter interesse em passar conhecimento. O professor de história, como vários outros, despeja conceções ideológicas como incontinência por toda a aula, e em todas as aulas. O aluno de história no Brasil sabe mais das distorções de Marx e da criação Che Guevara, ou mesmo do terrorista (é este o nome) Marighella, do que de sua casa imperial. A ignorância é tamanha que o nosso Ministro das Relações Exteriores, chefe da diplomacia brasileira, em uma manifestação gritante de desconhecimento que deveria envergonhar a todos, veio-nos brindar com a classificação de um "Orleáns e Bragança" como imigrante. Seria como um português chamar a Dinastia de Avis, por exemplo, de estrangeira. Erro crasso, mais que crasso, erro que demonstra o colapso completo do sistema educacional brasileiro, responsável por estar nas derradeiras posições na avaliação do PISA.

Para além disto, ainda há um outro motivo: pela presença do primeiro motivo, o brasileiro costuma ser manipulado na visão da história de acordo com os interesses antigos republicanos. Como a república no mundo costuma ter a aura de imaculada e fim último da inserção da democracia, em terras tupiniquins esta república veio e se impôs pela mentira ou omissão dos factos relacionados ao Império. Hoje vemos a Lula e seus asseclas dizerem que este foi o maior governante brasileiro diante da figura obscurecida, quase caída no ostracismo de D. Pedro II, um dos mais injustiçados nomes de nossa narrativa (nossa memória).

Graham Bell e Charles Darwin, por exemplo, para citar dois cientistas (concorde-se ou não com as suas teses, mas grandes representantes de suas áreas) reconheciam no imperador brasileiro homem de grande cultura e preocupação com o conhecimento. Foi em seu governo que foi criado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o conceituado Colégio Pedro II, que hoje tornou-se sinal de vergonha e ideologia partidária. Ali, senhoras e senhores, e na área de educação, saúde, cultura, o nosso imperador tirou o Brasil das sombras absolutas do analfabetismo e criou a primeira grande mudança social. A Lei Áurea, do fim de seu governo, e feita por sua filha, a Princesa Isabel, nada mais é do que uma representação do que houve sob seu interessado governo. Moderado e grande - profundo - conhecedor do país que tinha sob seus cuidados, D. Pedro II enunciou esta frase acima (sobre o dever duro de governar) como mantra, verdadeira vocação no sentido dado por Max Weber à política para o político. Mas tudo isto é ignorado por conta de uma orquestrada falta de conhecimento, grosseria científica de privilegiar Luís Carlos Prestes ou Getúlia Vargas a um grande governante como foi o altivo imperador, admirado por Machado de Assis. Daí a razão clara de vivermos este ostracismo total. Daí a resposta negativa à pergunta título significar tanto do desprezo e da alergia que o brasileiro desenvolveu pelo saber. Não é à toa que o país está como está.


Eustáquio Silva.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O mito do nazismo de direita

O artigo publicado por George Reisman no site Mises Brasil diz claramente: Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário? fala bastante do que quero dizer neste texto sobre o mito nazista de "direita". Em primeiro lugar abro um parêntese: a nomenclatura esquerda e direita, típica da Revolução Francesa, não é-me predileta. Acho que há várias formas de poder referir-se a diferentes pontos e posturas políticas sem aludir a posição como estavam desenvolvidas as diferentes mentalidades na altura - ou no entorno - de 1789, em solo francês.

Segundo Reisman, a contribuição de Ludwig von Mises foi, decididamente, demonstrar a caracterização do estado nazista enquanto socialista. E este estado socialista de coisas, a partir de 1936 e em diante, transformou-se em autoritarismo e totalitarismo. O restante da história e demasiado conhecida e demasiado debatida há anos. A vertente do artigo é puramente económica, mas eu devo dizer que precisamos discuti-la, também, em um viés histórico.

O que mais define um estado socialista? A grande, eu diria, a enorme presença do Estado. Neste ponto a Alemanha dobrou-se sobre si. Não é um organismo internacional ou internacionalista como o comunismo, todavia é assim o comunismo, e não o socialismo. O socialismo pode, muito bem, ser totalitário e fechado. E neste ponto lembrem-se de um ponto da "ideologia nazista" que geralmente passa despercebido: a eugenia. A raça ariana não pode ser, ou não deveria ser, ao menos, fechada exclusivamente sobre um povo, pois a definição de estado não abarca - ao menos teoricamente - a presença de invidíduos de uma raça inteira. Há judeus no mundo inteiro. O que os faz judeus não é pertencer a Israel como cidadão, mas a pertença às tradições e culturas, principalmente ao herdamento da religião. Isto deve ser muito bem pensado para que não pousemos a raça ariana apenas sobre o solo alemão. O controlo militar e político é uma coisa, a ideologia e cosmologia nazista são outra e bem distinta coisa.

Vale ressaltar que mesmo o chamado radicalismo de direita não é perseguidor das personagens que o nazismo foi. O nazismo, ou "O nacional socialismo", é, na verdade, uma espécie de socialismo. Assim como o socialismo fabiano, assim como o "socialismo e liberdade" (sic). Este socialismo nacional, que também cobre o fascismo, historicamente tem elementos em comum com o socialismo tradicional ou científico e não o capitalismo que escolheram para coloca-lo no espectro. Alguém já viu algum capitalismo, por mais mascarado que seja, sem a liberdade de mercado e a liberdade de fazer-se mercado? Alguém já viu fazer-se mercado livre com restrições de povos e pessoas no mundo contemporâneo? Mesmo em passos mais antigos da história é possível ver comércio entre reinos em guerra, pois o comércio independe das vicissitudes bélicas, a não ser que estejamos a falar de uma guerra ideológica, e era esta a fomentada pelo nazismo contra os seus inimigos. Como se não bastasse a lógica dos factos, não convencem-se nem da filologia dos nomes, então há dificuldades de manter-se este discurso.

Qualquer pessoa, em sã consciência, percebe que o nazismo era socialista, sobretudo se seguir não só a linha económica, mas a social e a política da época. Qualquer pessoa igualmente longe da insânia pode vislumbrar que os passos da confirmação do nazismo no poder (e até a sua queda) sugerem necessariamente que houve a mesma sequência de eventos que existe em ascensões socialistas mundo afora. Primeiramente algo junto ao povo. Em nome da democracia. Contra a tirania dos "outros". Depois que se assume o poder, a vigilância, a falta de respeito pela diferença e a perseguição e censura declaradas em nome do decoro, dos limites morais e assim por diante. Até hoje tentam negar os mortos do comunismo, mas aos do nazismo ninguém ousa fazê-lo. Porém a estratégia é retira-los do espectro da "esquerda"e por isso construíram o mito que existem totalitarismos de um lado que não o socialista neste sentido. Percebam a isto e estarão vendo a lógica mitológica existente.


Eustáquio Silva


quarta-feira, 7 de junho de 2017

A queda do ocidente e o "Oitenta e oito".

Poucas coisas são tão notórias em nosso tempo, em nossos dias, do que o declínio ocidental. Mas não é o bastante lançarmos aos leitores esta impactante expressão sem explicar aquilo que entende-se por "ocidente". Ocidente é justamente, e não apenas um conceito geográfico, topográfico, o trecho de terra, do planeta, no qual desenvolveram-se grande parte da nossa civilização. Nas eras imediatamente anteriores a Cristo e depois dele, foi neste campo da terra que temos contada a história e disseminada a cultura que deu origem a boa parte do mundo que hoje vemos. Foi no "oeste", ou melhor dito, no ocidente que tivemos três grandes pontos históricos, agrupamento de pessoas ou produção cultural que transformaram o mundo definitivamente.

A filosofia grega: um movimento que começou com a construção do mito e foi ladeada pela edificação do teatro, das artes e da ciência grega. Mas foi a Filosofia grega quem destacou para mundo conceitos que perduram e nutrem este grande grupo que são os ocidentais. Os pensadores de antes de Sócrates até as portas do domínio romano legaram-nos conhecimentos de cosmologia, astrologia, ciências, lógica, metafísica, dentre outros, que foram grande base do conhecimento humano. A ética grega deveria ainda hoje ser alicerce das acções e relações entre os homens, e mesmo que não tenham criado muitos de seus conceitos, foi com a sua visão de síntese, quase euclidiana de construção geométrica, que expandiu-se o que hoje chamamos de cultura de berço.

O Direito Romano: pelo qual cunhamos conceitos, nem sempre favoráveis a meu pensamento, mas que são, indubitavelmente, pilares de nosso mundo: república, propriedade privada e pública, justiça, dentre tantos outros. Por este caminho os séculos edificaram um direito que pode-se considerar melhor acabado do que o primitivismo, do que o barbarismo cuja melhor manifestação seriam vistos onde o direito romano não possuiu influência alguma.

A ética, o modo de vida judaico-cristão: o complemento de intelecto, leis e conduta, em verdade, só pode ser o conteúdo, o espírito interno desta sociedade ou destas sociedades. E é a rica completude entre judaísmo e cristianismo quem produziu este fecho. Na verdade, a nossa moral e a nossa valoração das coisas perpassa aquela descrita e vivida no seio destas religiões ou de conceções que nasceram deste meio. O judaico-cristão cimenta uma harmonia entre a esfera intelectiva e social do homem com o elemento espiritual necessário ao bem viver e ao bem agir.

Este modelo ocidental de vida começou a ser combatido, implodido, justamente com a Revolução Francesa. O Iluminismo refundava as bases filosóficas tirando da filosofia grega e medieval o seu papel essencial. A ideia cartesiana de cogito estava posta em primeiro plano numa elegia à razão de dentro do indivíduo. A ascensão do idealismo era complementada pelo fluxo do empirismo exagerado (e distorcido) cuja principal função seria legitimar uma visão nova. A isto serviram Diderot (e a Enciclopédia), Voltaire (e o Cândido) e Condillac (e o Sensualismo, uma espécie de super-empirismo). Estava assim ferida a epiderme do mundo ocidental.

Na mesma revolução houve uma nova guinada jurídico-legal. O espírito das leis mudou. Rousseau também foi grande contribuinte para isto. A natureza humana foi refundada e, com ela, também foi refundada a sociedade. As máximas de lei eram agora voltadas para direitos e não mais - ou de forma menos clara - ao par, ao binómio direitos e deveres. Assim o direito romano rebatizado pelo contributo dos direitos de costumes bárbaros, estava oficialmente em xeque.

Por fim, e ainda no âmbito desta refundação da natureza humana, por exemplo, as bases do judaico-cristão estiveram desde 1789 (ou de antes disto) a serem combatidas. A questão teológica relegada a um porão frio e de pouca frequência de visitas. O laico sobe ao campo de obrigação. O religioso perde a dimensão espiritual e torna-se "social", "engajado", a caridade foi substituída pela filantropia. O espírito de auxílio aos necessitados ao de bandeira ideológica. Caía em xeque o último pilar. Trincava a última grande ideia e atitude ocidental. O problema estava posto.

O que vem depois? Aí está o maior perigo. Questionar a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã trouxe-nos coisas nada avançadas e nada queridas. A ideia de igualdade passou a construir horizontes como o de uma globalização política e uma padronização de comportamentos. O politicamente correto, seletivo e questionável, promove uma campanha de aceitação massiva de elementos externos, em nome da convivência, da aceitação e do não-preconceito. O islão, incompatível com o ocidente passou a ser a única grande religião que o culturalismo quer doutrinar como a aceite. O cristianismo e o judaísmo, seus defensores ou mesmo seguidores, são a crítica da vez. Protestos artísticos de deboche destas duas religiões multiplicam-se a todo tempo. A conformação social é a de um ambiente de liberdade, de igualdade e de uma fraternidade, mesmo que somente de conveniência e entre os pares. Da revolução francesa vieram, a reboque, a revolução russa e todas as suas consequências; as pequenas revoluções dos últimos dois séculos e os chamados movimentos de minorias sociais. O mundo não era mais aquele. O ocidente não é mais ocidente.

Esta figura e estado de coisas faz surgir uma petição. Uma necessidade. Como o louco homem, que após a revolução francesa, grita "oitenta e oito" numa tentativa desesperada de viver o antes. Isto é impossível. Mas o conservadorismo é o não à revolução francesa e suas derivadas. O conservador, desde Burke, põe-se como última instância contrária a tudo isto que aquele ano de 1789 representou. O conservador é justamente aquele guardião destes três pilares, único guardião, que os faz ainda não serem mortos. Luta contra tudo e todos. É simplesmente um grande lutador em suas poucas ocasiões contra a máquina revolucionária de nossos tempos. A rebeldia que mata, que escraviza em nome da liberdade e que passou a ser referência de como agir e de como pensar. Só com esta visão das coisas pode-se notar o tamanho da crise. E, espero eu, que o mundo perceba a isto em tempo. Ou as coisas serão piores em breve, bem em breve.



Eustáquio Silva.

domingo, 4 de junho de 2017

O Islão consome o ocidente

Por mais que queiram dizer o contrário, o Islão consome aquilo que convencionou-se chamar de ocidente. Aos bocados os seguidos actos de terrorismo demonstram, de um lado, a força que estes grupos possuem em atacar aos seus inimigos com intermitência. Por outro lado mostram a absoluta fragilidade misturada com certa permissividade e tino ideológico com que países da chamada União Europeia respondem a estas investidas vindas do leste.

Londres sofreu mais um ataque. Manchester já sofrera outro. A Inglaterra passou a ser alvo do terror muçulmano. E estou correcto ao dizer terror muçulmano. Em outra religião não existe este procedimento e este modus operandi terrorista. Em outro credo religioso não há a absoluta intolerância estampada em letras enormes como há no colo da religião de Corão. Corão este que manda sem qualquer puder "cortar a garganta dos infiéis...", que autoriza fazer com que a guerra santa não cesse de combater o infiel com a morte. Aliás, infiel é todo aquele que não é muçulmano, mas, e principalmente, o cristão e o judeu. Os dois são os reais adversários milenares do islamismo. Tanto um quanto o outro seriam os obstáculos para a tomada global do islão. Ainda bem que são e queira Deus que sejam por muito tempo.

O que vimos em Londres é somente mais um passo no combate ao mundo ocidental tal qual temos visto mundo afora em todas as partes. O que é imperdoável é o tratamento da imprensa ao caso. Insistem, de forma já totalmente injustificada, em chamar de atitudes isoladas a todos os ataques terroristas sofridos até ontem. Os líderes globalistas - comprometidos com agendas de origem socialista e culturalista - insistem em classificar como preconceito quaisquer atribuições de violência à religião muçulmana. Mesmo o facto lógico de que somente no Islão temos atentados para eles não é o bastante. O mundo precisa assistir a quantos atentados para que alguém admita que estamos diante de uma "política" comum à religião de Maomé? Será que ninguém percebe que não há este tipo de acção fora dela? Ou há um interesse muito grande do socialismo, adversário ético e natural do bloco judaico-cristão, em perpetuar ou utilizar-se do islão como forma de destruir a resistência ocidental em um de seus pilares?

Se assim o for precisa-se avisar aos socialistas que pretendem usar deste subterfúgio que nada garante que sem o ocidente pela frente haverá a sociedade sem classes ou o mundo sem religião da velha canção "Imagine" do John Lennon. Nada garante que esta suposta aliança continue e que se perpetue por muito tempo.

Diferente das outras mensagens, esta é uma mensagem de preocupação, com algum teor histórico, mas principalmente uma mensagem de preocupação e de alerta a este mundo anestesiado diante de uma realidade que temos visto desde 11 de Setembro e intensificada diante da fraca e conivente política de Barack Obama nos EUA e da União Europeia com ênfase na Alemanha de Ângela Merkel. Foi com esta combinação que o mundo tornou-se instável. Foi nestes termos que as portas foram abertas para que este tipo de terror se tornasse hábito em solo europeu (mas não só). Aqui estamos diante uma forma triste de novo mundo. Uma forma de destruição milenar da nossa história em prol de uma nova forma de vida altamente prejudicial à voz discordante, ao contraditório, ao livre. Depois não digam não houve aviso. As lágrimas de hoje, das vítimas e parentes de hoje, nada mais são do que o início do grande luto, este que abaterá, caso não haja nada feito em reação, com toda uma estrutura de mundo que muitos acostumaram-se a espezinhar, mas que muito sentirão quando se for.


Eustáquio Silva.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um mundo contra o conservadorismo

Os anos de 80 do passado século mostravam um mundo diferente. De um lado a decadente parede socialista representada pela URSS, por uma Cuba mergulhada em pobreza e outras repúblicas menores cheias de vontade de entrar na maré vermelha. Esta onda tinha força tal para compreender artistas, intelectuais, na chamada força do marxismo cultural até então em voga e sem críticas. Este grupo era abastecido por partidos ideologicamente socialistas ou comunistas que arvoravam-se bastiões da ética e do bem fazer a coisa pública para os pobres. Nesta altura o mundo assistia a um maniqueísmo frio, a chamada guerra fria. Não haviam acções declaradas e o mito do "império ianque" estava a pleno vapor entre todos. Praticamente toda a história, filosofia, ciência política e sociologia eram de natureza socialista. Isto demovia multidões de jovens recém formados e amantes da Revolução Francesa e da Revolução Russa, duas das mais danosas revoluções humanas em toda a história ocidental, se calhar comparáveis apenas às Revoluções totalitárias islâmicas como a que transformou a Pérsia em Irão pela mesma altura.

Por outro prisma, existia aquilo que poderíamos chamar de "outro lado", a saber, uma sensível posição conservadora. Em países como os EUA de Ronald Reagan, por exemplo, ou o Reino Unido capitaneado por Margaret Thatcher, ou, ainda, o Vaticano do Papa João Paulo II, dentre outros, que traziam uma resposta a esta onda social-comunista que varria metade do mundo. Era uma resistência à altura, isto é, bem melhor que o lado que atacava. Neste ponto as sementes lá atrás plantadas por um Edmund Burke floresciam rapidamente. E esta resistência significava que este movimento de degradação ética (dito em nome da ética, de forma paradoxal) não teria lá facilidade de continuar a prosperar. Bem mais que o marxismo, o marxismo cultural pareceu muito mais daninho no anterior século, e comprovado neste, e por isto as atenções teriam de ser voltadas todas a ele. O tamanho de partidos radicais do comunismo no mundo evidencia que estes extremos não são lá os mais perigosos, mas sim aqueles que são amálgama de outros "interesses", que mesclam outros rumos e que pululam de defesas e gritarias por uma sobrevivência no poder.

Desde cedo o mundo tinha um ataque e um contra-ataque. Uma semente de revolução e uma contra-revolução. Somente depois é que arrefeceram as presenças ditas conservadores e os ideais socialistas começaram a ter hegemonia política. Hoje em dia o mundo está pendente para o lado vermelho. A ONU, mais uma vez ela, é o órgão máximo de representação do marxismo cultural. A imprensa toda foi capturada e os meios académicos continuam sob seus domínios. O século XXI assiste a um mundo contra o conservadorismo. Ao conservador foram taxadas as piores rotulações, sobretudo aquelas que poderiam ser facilmente postas nestes acusadores conforme as suas visões e atitudes no mundo. A história e demais ciências humanas têm sido adulteradas. Aquela que deveria ser uma visão de mundo passou a ser a visão de mundo sob pena de exclusão em sociedade.

Eu falo por experiência própria. Enquanto advoguei causas ditas de esquerda, em suas formas variadas, era promissor, bem dotado de inteligência e seguro que seria um grande intelectual. Após abandonar racionalmente toda e qualquer aproximação com o socialismo/comunismo, que conheci por dentro, vi implodir a imagem que possuía ante professores, colegas, antigos seguidores. Passei a ser questionado e perseguido a ponto de ser rotulado de "conservador" no sentido que eles dão a palavra. Não conhecem a essência do conservadorismo. Mas adulteram dados estatísticos, promovem a mentira e o argumento do dedo em riste, aquele que promove mais do que nunca apenas a insensibilidade real perante as coisas que vemos existir. O mundo sem o pilar forte do conservadorismo pende rapidamente ao seu caos. E é isto que desejam estas senhoras e estes senhores da geração do "x" para denunciar igualdade de géneros. É justamente isto que alardeiam para um mundo cada vez cheio de parênteses e vocabulários pré-determinados. Um mundo contra o conservadorismo, que chamam de fascistas e golpistas, isso é o que eles dizem...


Eustáquio Silva

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A era das bolhas de sabão

Já diria T. S. Eliot, numa sábia indagação: "Quanto conhecimento perdemos com a informação"? E isto parece ser mais e mais visto quando vemos o limbo em que está-se a meter a opinião pública "formadora de opinião" no Brasil e no mundo.  Quando as notícias e as informações parecem ganhar ares de verdade universal, algo está doente, diria mesmo agonizante, nesta realidade.

Como não notar que diante do último ataque terrorista em Manchester, com a morte de várias crianças, o seu prefeito resolve pedir uma vigília pela paz? Como não notar que o Brasil mistura pedidos pela saída do actual presidente da república Michel Temer com uma grande manifestação com espetáculos e bolhas de sabão? Isto mesmo, senhoras e senhores, eles querem mudar a instabilidade política e social que assola um país continental a soltar bolhas de sabão no ar.

Se é preciso cunhar um novo termo a nossos tempos eu coloco à luz o conceito de uma era da inutilidade. Esta era caracteriza-se pela forte propensão de toda a gente a somente dar azo ao inútil, ao descartável, ao totalmente vazio de sentido. Esta malícia interpretativa é bem mais visto na história. Na forma como transformam uma religião violenta e primitiva em uma insígnia da paz. Como transformam truculência e depredação de património público e privado em democracia, e ditadura em tudo que é contrário. É incrível a capacidade quase resiliente de resistir quase que completamente ao são, ao equilibrado, ao racional.

Esta patologia social é facilmente comprovada quando alguém acusa a vítima de constranger o bandido. Quando chamam de perseguição o pleno funcionamento da justiça. Quando selecionam castamente todas as notícias interessantes, sobretudo as já escritas com tendenciosidade, para que as manchetes favoreçam o domínio mental das pessoas.

Por isto você vai a um café falar mal de Nicolas Maduro, e do que ele faz com ela Venezuela, e todos chamam-te de desonesto intelectual ou fascista, pois ou você não percebeu que Maduro deturpou Marx/Engels e Chávez ou você é contra um governo que privilegia o povo e não os da chamada "elite"

Causa-me brutal impressão a maneira quase desonesta de chamar criminosos, ou ao menos alguns, visto que já estejam condenados pela justiça, de heróis e de perseguidos. Clamam por uma atenção que jamais tiveram. E quando há violência - toda ela consentida - age de forma infantil ora apelando para a infiltração de pessoas no movimento, outra ora para bolhas de sabão em avenidas movimentadas da cidade, repleto de artistas que dariam credibilidade (sic) ao festejo. António Gramsci está aos pulos de alegria com a desfaçatez de tantas pessoas...

O jeito é aguardar um gesto de sanidade de alguns a interpretar que aquilo que vivemos é um crepúsculo, mas não dos ídolos, como diria Nietzsche, mas da razão, da sadia razão, que esvai-se e desaparece como uma "bolha de sabão".



Eustáquio Silva



sábado, 27 de maio de 2017

A mentalidade autoritária na história republicana



      É comum assistir na história contemporânea muitas tentativas de conquistar o poder sem termo. Seja pela absoluta incapacidade de ver o seu comando terminar ou pela deliberada noção de que são o retrato do país em que mandam. Este complexo de Luís XIV nada tem de afeito à monarquia de qualquer natureza, mas a regimes prioritariamente republicanos, supostamente democráticos e quase totalmente socialistas ou comunistas.

      A "dinastia" representada pelos "Assad" em Síria ou os "Castro" em Cuba, ou mesmo a tentativa de Rafael Correa de reeleger-se sem limites ou restrições, são acto-reflexo desta ideia a qual vou chamar de mentalidade autoritária. Todas as vezes que deparo-me com a situação da Venezuela, por exemplo, na qual Nicolas Maduro insiste em ter mais e mais dias sem direito à oposição ou à prestação de contas, eu remonto à ideia: a ditadura que tenta-se com estas artimanhas é absolutamente compatível com a ideia de autoritarismo que este conceito toma como certo. Notadamente países cujo governo cai nas mãos de partidos ou pessoas de pulso de ferro tendem a correr grande risco de perder a ideia de "coisa do povo" para a realidade de "coisa de um só, ou de alguns". O que quero dizer? Que a democracia, ou mesmo a república, em mentalidades puramente autoritárias deturpa-se não só em ditadura, mas em uma espécie de oligarquia formada pelos adeptos e pelos militantes do partido dominante. Esta face em nada tem a ver com nobreza ou não de seus membros, mas a uma formação de verdadeiras células de poder que alimentam-se deste e que procuram a todo custo manter-se nele.

      A Rússia soviética foi o grande exemplo material disto. Enquanto foi pensada para implantar à força o socialismo, sobretudo com a morte do czarismo russo do antigo regime, para, então, poder abolir as formas estatais e migrar ao comunismo, falhou consideravelmente. Nunca ultrapassou a linha estatal socialista e, ainda, aparelhou de tal forma este governo, contra seus princípios teóricos, que se tornou a maior máquina burocrática de seu tempo.

      E isto nada tem a ver com a figura do absolutismo régio do antigo regime. Não eram os reis centralistas que figuravam como homens de apreço moralmente deturpável pelo poder. O rei tinha outro estatuto. O rei certamente poderia falar em permanência no poder, pela sua filiação, ao menos em Europa, de uma perceção bíblica (São Paulo em Epístola aos Romanos - 13, 1-2), todavia não em manchar a sua reputação ao fazer de tudo para que seu domínio aumentasse, mesmo que a apelar para aquilo que chamo de exagero de acção. Mesmo entre os reis modernos, aqueles absolutistas, ou entre tiranos clássicos, não havia a burla como instrumento de aumento de poder. A contrário senso do que há hoje, o governante de nossos tempos quer o poder de qualquer forma, a ponto de usar de todas as armas possíveis para garantir este cetro por mais tempo.

     Em suma, quando meus amigos leitores ouvirem falar em autoritarismo, em quebrar leis para poder usurpar por mais tempo o poder, entre outras coisas congêneres, vejam bem a face por detrás destes pedidos. Vejam claramente aquilo que subjaz claramente adiante disto. Está-se diante do gosto excessivo e estima duvidosa pelo poder. A mentalidade autoritária produziu monstros como a URSS, a Coréia do Norte ou a Alemanha nazista. Não é preciso ir muito longe a perceber isto. E esta mentalidade nasce dentro da república, dentro do seio democrático e muitas vezes com maciço apoio popular. Nasceu do desejo do povo, que, segundo Rousseau, é o sítio de onde emana o poder. Se eu considerar este ponto como inflexão deste domínio imposto eu resumo: é bem dele que brotam todos os problemas e crimes, violência e caos causados pela sede incontrolado de controlo.



Eustáquio Silva

domingo, 21 de maio de 2017

Depois do abismo, o golpe: O Brasil pode ir mais fundo na imoralidade.

Depois do fundo do poço cava-se mais e lá o Brasil esconde-se moralmente. Este é o resumo daquilo que lemos, ouvimos e somos moldados a pensar da crise principalmente moral que assola o país. 

Como se não bastasse uma série monstruosa de delações (colaborações premiadas), nós fomos brindados com uma nova modalidade, aquela em que pessoas confessam crimes a milhares de políticos, inclusive presidentes, e vão para os EUA. Aquela em que a própria definição de "colaboração premiada" é traduzida bem melhor em acordo entre interessados do que qualquer outra coisa. A pergunta, deveras pertinente, de minha amiga, e consciente escritora, Claudia Wild, ecoa com toda a razão: a quem interessa tanta celeridade e tanta campanha da imprensa e de um partido que acabou de sair do governo e tem seu líder máximo investigado em cinco processos? A dúvida é retórica. Ninguém cogite a inocência do presidente Michel Temer que deve ser investigado por receber em sua residência um contumaz criminoso (pela própria confissão dele). Todavia, por qual razão não houve perícia da Polícia Federal como em todos os outros casos, inclusive o da gravação da então presidente Dilma para o mesmo Lula oferecendo um termo de posse em clara obstrução da justiça, a mesma que pedem para prender o também criminoso Aécio Neves? 

O Brasil está por sofrer o golpe final dos desesperados envolvidos na sordidez de assalto ao país. Todos unem-se nos bastidores para anular a Operação Lava Jato e contam com a anuência de falsos heróis e da grande e desacreditada imprensa para conseguirem atingir a seus objectivos. O ritmo da lama está a envolver procuradores do Ministério Público Federal, Juízes de instâncias superiores, advogados, políticos dos dois poderes (legislativo e executivo) e culminam em figuras públicas ligadas por laços espúrios ao mar de piche em que estamos sendo afundados. 

Que o Brasil acabou não tem-se dúvidas. Que este país vai ainda mostrar mais desta podridão lê-se nas entrelinhas destas acções inconstitucionais dos que até agora disseram que "eles cuspiam na Constituição". Querem alterar as leis. Querem justificar os seus erros e querem punir quem pode puni-los. Isto é claro sinal de desordem interna. Diante deste sentimento, o de salvar os próprios pescoços, não tem como haver saldo positivo em economia. O país para. O país espera em crise pelos criminosos não pagaram por seus crimes. Lula, em todo o cinismo e arrogância peculiares, insiste que é o PT que irá combater a corrupção. Seleccionam agora aquilo que eu acho de indignação. Aceitam o processo quando convém. Afastam a este quando são os seus erros os escancarados. Em suma, a situação do Brasil é a de uma metástase de um cancro profundo e brutal. Não haverá mais salvação caso consigam alterar a lei e ponham as eleições directas em primeiro plano. Os rumos deste país são surreais e conformes aos da Venezuela. Aqui eu enxergo o grande perigo. Aqui eu tenho visto a grande artimanha. O Brasil acabou. Mas, enquanto cai num abismo sem fim, ainda aproveitam para mutilá-lo sem dó nem piedade. É isto que o maior país da América Latina foi tornado. Infelizmente... 


Eustáquio Silva 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O fim da República Federativa do Brasil


Senhoras e Senhores, a República Federativa do Brasil acabou. Esta não é uma frase dramática e nem fora de qualquer propósito. Se calhar,  até William Shakespeare diria haver algo de podre na coisa pública brasileira. As últimas revelações de um presidente - a comprar o silêncio de um ex-presidente da Câmara dos Deputados - simplesmente dinamitam qualquer chance deste país erguer-se perante o mal da corrupção. O fundo do poço parece, agora, está acima de nossas cabeças... 

Um país que teve a presidente Dilma a sofrer impeachment recentemente. Que vê o ex-presidente Lula, uma vez mais popular de todos os tempos, implicado em cinco processos penais, agora assiste a Michel Temer, actual presidente brasileiro e ao candidato de oposição na última eleição, Aécio Neves, caírem em escutas e imagens diante da corrupção, a marca registada deste país. A corrida ao cargo mor do executivo ainda conta com o presidente da câmara dos deputados, Rodrigo Maia, e o do Senado, Eunício Oliveira, todos citados na maior operação penal de todos os tempos: a Operação Lava Jato. Temer acaba de pronunciar-se pela não renúncia. Mas o governo está sepultado junto com toda a classe política que agora grita pateticamente por "Directas Já", uma inconstitucionalidade a mais de um processo de sujeira que supera em tamanho toda a Amazónia brasileira. Que mergulha no breu da amoralidade este país. 

A república deu errado desde o começo, com o seu golpe na monarquia em 1889. Estes 128 anos seguintes, no entanto, revelaram-se um autêntico fracasso. Uma vez que o aparelhamento dos poderes e sua convivência cínica chegam para provar definitivamente que o único ponto de evolução deste país nestes últimos anos foi a corrupção - e a sua consequente impunidade. Quando chegamos ao ponto de ver todo o espectro político implicado e figuras que foram destaque dos últimos quarenta anos de Brasil todas em flagrante delito de desonestidade sabemos que este país naufragou de vez. 

A intervenção militar cresce em necessidade. Esta não é uma frase boa a dizer-se. Nunca parece são que interrompa-se uma ordem institucional, porém a sua total fragilidade diante do assalto que os últimos anos de PT e PSDB fizeram (aliados ao PMDB) não nos deixa outro discurso possível. O mal chegou ao limite. Não temos mais para onde descer. Pedir que esperem da classe política, toda ela manchada pelo mal de encher os seus bolsos sem lisura e honestidade, que dê jeito com um grito maldoso de volta de um Lula, por exemplo, é jogar o país nas mãos de quem o destruiu. Não espere qualquer solução mágica e aguardem por interesses obscuros a mais em cima da mesa. Assim é o Brasil. Isto transformou o Macunaíma de Mário de Andrade na perfeita imagem diabólica do cidadão brasileiro, infelizmente. 

Amanhã não se sabe que tipo de Brasil ainda irá permanecer de pé. A economia voltará ao frangalho. As migalhas da república jazem moribundas. A crise não é mais a irresponsável marola que Lula, dentro de seu ilusionismo populista, uma vez professou. O Brasil, tal qual o Titanic, afunda rapidamente, enquanto a cantilena dos órfãos do PT parece tocar um violino desafinado com os refrões de "Lula lá". Não há espaço para retrocessos, aliás, o país parece perecer totalmente num mal espesso e enlameado. 

Por isto, senhoras e senhores, esperemos o desenrolar das próximas delações e das próximas cenas de uma novela pavorosa e destrutiva para ver a que ponto este país de alma mortas ainda apodrecerá sem corpo sepulto. Uns, tal qual Antígona, ou seria a Anti- Antígona, exigem que o país enterre-se com a indecência de criminosos governarem novamente. Pessoas que ameaçaram como Lula o fez o judiciário e a imprensa livre de prisão, visão de uma ditadura socialista à vista. Ordem e progresso nunca existiram neste intervalo. Ou República ou Nada parece ter-se revelado em nada. O que será amanhã? Não sei. Mas o Brasil, flagrantemente, acabou. 


Eustáquio Silva 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venezuela manchada de sangue ...

A quem tem interessado a situação da Venezuela? A grande imprensa, comprometida em culpar Israel pela suposta "escravidão" suportada por meia dúzia de afirmações de que a Palestina é eterna vítima do algoz de todos os tempos? A ONU, que em nada manifestou alguma indignação perante as investidas do ditador Nicolas Maduro que deixa o seu povo com ordenado suficiente apenas a comprar uma cebola fictícia por mês? A cultura "politicamente correcta", a mesma que chama ao Islão de "religião da paz" e persegue o cristianismo como o único mal verdadeiro de toda a história (a não dizer a perseguição clássica dos judeus)? Não, ninguém, de facto, parece importar-se com os vários mortos diários do povo em manifestação contra um presidente que quer eternizar-se no poder. Não há textos, não há "hashtags", não há manifestações. Não vejo grupos ditos de forte voz cujo grito seja "Venezuela Livre" tal qual a "Palestina livre". O silêncio conivente assusta e abandona o povo do país sul-americano a um futuro sombrio. Pessoas morrem e líderes de oposição são aprisionados todos os dias sem que a história presente faça algo para mudar tal cena. Verdadeiros horrores são postos na vala do silêncio, como corpos de todos os tamanhos (homens e mulheres, crianças e idosos) que só cometeram o pecado de discordarem das pretensões absolutistas de um Maduro obcecado pelo poder. 

O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade - partido político socialista, com nome totalmente contraditório e impossível) mantinha forte apoio à situação da Venezuela a qual chamava de "país democrático", o que mudou apenas com o decreto de Maduro de tirar o poder legislativo das mãos de deputados e colocá-lo no Judiciário, em maioria seus seguidores, ou, ainda, nele mesmo. Como hoje em dia é muito mais difícil mentir ao povo e sustentar argumentos contra factos sabidos por muitos, tentam esconder que milhões vãos às ruas contra este regime autoritário. Muitos são presos e agredidos e tantos outros desaparecem ou perdem seu direito mínimo de liberdade e de expressão. Manifestações de chamarem aos adversários daquilo que são abundam na ideologia bolivariana, filha legítima do leninismo clássico do leste europeu. E assim a Venezuela segue cativa e vítima contumaz destes atacantes sem escrúpulos que possuem a célere e costumeira vontade de perpetuarem-se no poder pela força. Isto não é combatido por vários veículos de opinião pública e opositores são mantidos presos ou têm a sua reputação assassinada por uma sequência de actos questionáveis de um governo que assalta um país a ponto deste não ter comida para as pessoas e a criminalidade ser por sobrevivência pura e simples tornando um estado, que deveria ser soberano, em presa fácil e constante de uma série de aproveitadores. Enquanto a Venezuela é manchada de sangue e das campas dos mortos do povo sofrido, alguns preferem chamar de "golpe" o processo de Impedimento da Ex-Presidente Dilma. O que vale a estas pessoas antes é a ideologia do que o bom senso e sempre será assim. Enquanto isto estou à espera das severas críticas a Venezuela. Até quando? Não sei... 


Eustáquio Silva  

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Socialismo é barbárie: notas sobre o seu fracasso ideológico.

Poucos podem dizer, hoje em dia, que o socialismo tenha dado certo. Na verdade, a história, aquela que Fidel Castro, e mais recentemente, Luís Inácio Lula da Silva, invocaram como a franca juíza de seus actos, não pode dizê-los inocentes por defenderem esta bandeira. O socialismo, apesar de sua suposta capa ideológica superior, não passa de um fracasso económico e político e de uma ditadura completa no campo cultural e moral. O que há em solo socialistas é a completa ilusão de um mundo igual por decreto, no qual pessoas poderiam ser "niveladas" em um grupo só, e aqui digamos que só possam ser niveladas por baixo e da pior forma possível. Jogam fora a linha de raciocínio aristotélica de que apenas iguais possam ser tratados de forma igual e desiguais na medida de suas desigualdades assim tratados. E abundam cenários nos quais só destacam-se os preconceitos e imposturas socialistas e não algo que tenham feito de positivo. 

O que há na Venezuela não é democracia, mas a destruição de um país. A perseguição de opositores e o assassínio de manifestantes. A falta de produtos de higiene e comida à mesa das pessoas. Segundo a lógica da publicidade socialista, da luta contra o "capital", tão aludido por todos partidos alinhados aqui, não deveria haver pobres e miseráveis. O senhor Lula vocifera que ninguém fez tantos pelos pobres no Brasil quanto seu governo. Mas estes pobres continuam pobres ou até ficaram mais miseráveis. O que houver, então? O que houve foi que o dinheiro público financiou (como financia mundo afora) os amigos de luta e os chamados "movimentos sociais", que tornaram-se verdadeiras máquinas de produção de bens e poder. Famílias inteiras empregadas em sindicatos. Sindicatos e seus chefes gozando de grande, imensa, infinita riqueza, desmistificando a absoluta falta de realidade do discurso socialista. É imperioso que se diga: Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, dentre tantos, apenas espelham o longo e tinhoso inverno que o socialismo produz. Envenena com barbárie de mortes de toda a espécie. O confronto inútil e a distorção consciente da história para encobrir os seus erros daninhos. 

Certamente a máxima de que "socialismo ou barbárie" pode ser livremente permeada pelo "socialismo é barbárie". Se havia em Rússia czarista uma centena, grande grupo, de "almas mortas", o que dizer do que viu-se com a União Soviética? Que exemplo teríamos de um episódio clássico da história militar no qual Leningrado foi sitiada de 8 de Setembro de 1941 até 27 de Janeiro de 1944, diante da falada força do exército soviético, até que uma cidade quase inteira perecesse à míngua e com graves sintomas de abandono por parte de sua liderança, no caso, o Senhor Estaline, de cuja lembrança nefasta pouco ainda não foi dito. 

Assim a história do socialismo, por longos dias, desde a escrita de suas arestas por Marx e Engels, tornou-se a história da barbárie. Pouco mudou hoje. O que tem de novo daqueles tempos mais bárbaros é justamente o acrescento de uma lógica de socialismo/marxismo cultural, cuidadosamente investido e cultivado por escolas de pensamento como a Escola de Frankfurt, a Escola de Budapeste, Gramsci e outros pensadores, de diversas áreas. Mas jaz ao centro a mesma matriz de cariz ideológico determinado. O movimento de destruição dos pilares ocidentais não é à toa, mas necessário, para já, para que esta mentalidade primitiva e retrógrada assuma posto de poder. Isto incorre em uma grande divisão. O que quer a social democracia é justamente apagar este rasto de sangue e de violência de seus "vizinhos" e por isto são tão odiados, mesmo entre seus companheiros de sala. Vale ressaltar algum destaque a poucas e raras excepções pensantes, mas de um modo geral, e sem sombra de dúvidas, nestes meandros estão soldados de uma guerra única desde os primórdios que está ressaltada na falsa disjunção - ou diria na disjunção inclusiva - de socialismo ou barbárie. Se tens um fatalmente terás o outro, sem escolha de um dos chifres. Então a figura é esta e cabe a nós saber divisá-la sem a máscara oportuna das boas intenções, para vê-la, assim como diz Nelson Rodrigues, assim "como ela é". 



Eustáquio Silva. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Fernão Lopes, a história e a literatura no génio português.

Fernão Lopes (+- 1385 / 1459 ou 1460) é um daqueles nomes ímpares da história ocidental. Dono de uma escrita rebuscada, se calhar a mais bem acabada de seu tempo, e pioneiro da grande safra de escritores portugueses, este primeiro cronista régio e guarda-mor da torre do Tombo significou muito mais. Em seu tempo dedicou suas letras à memória de Portugal. Por ele, por encomenda do rei Dom Duarte, o eloquente - em preocupação devora com a cultura, a lei, e a preservação de seu país - passaram as linhas correspondentes aos Reis Dom Pedro I, Dom Fernando e Dom João I, pai de Dom Duarte. Mas atribui-se com certa razoabilidade a este mesmo autor a Crónica de 1419, sobre a primeira dinastia ou A Crónica dos Sete Reis do Conquistador Dom Afonso Henriques até o Bravo Dom Afonso IV. Seu estilo figura, então, naquele estilo que pode-se chamar de crónica, em voga em toda idade média, e com retoques e assinatura de um grande génio das palavras. 

Na Crónica de outrora, como dito por tantos, estão encerrados elementos de rigor documental, de preocupação histórica, bem como elementos de uma fina e atraente literatura. Este caminho Lopesiano à perfeição de escrita excede o mero encômio de seus senhores, pois ele mesmo declina a dizer do que percebe como bom escritor, bom "estoriador". Diz o guarda das escrituras da Torre do Tombo: Outra cousa geera aimda esta comformidade e natural inclinaçom, segundo semtença dalguus, dizemdo que o pregoeiro da vida, que he a fame, reçebemdo rrefeiçom pera o corpo, o sangue e spritus geerados de taes viamdas, tem huua tall semelhamça antre ssi, que causa esta comformidade. Ou seja, um escritor que faz de sua "fome", ou sua necessidade, uma conformidade para com o que conta, em verdade, está a, apenas, desviar-se da verdade em prol de seu benefício. Desde Fernão Lopes, ou bem antes dele, o ofício bajulador é tomado como negativo. O escrito ideológico é apartado da seriedade. Mesmo com panos literários, usa-os como estilo e não como recurso de género textual, o seu lema é ler, ou mesmo interpretar, com apuro e grande certeza do que diz. Careço, certamente, de ver autor com tamanha forma suave de juntar as palavras. Aquele que precedeu Camões no ofício das boas letras portuguesas, tendo João de Lima e Sevilha um precursor à atura, mesmo que na língua galaico-portuguesa, não está, sem sombra de dúvidas, abaixo da grande responsabilidade que é elevar em muito o nome das letras e literatura portuguesa. Não engane-se o leitor com sua produção completamente voltada à história, pois em seus anos, história e narrativa, boa narrativa, séria narrativa, tinham certa identidade possível e até atractiva. 

Se muito da história de Portugal, em especial de um Portugal dos séculos XIV e XV, está em suas páginas, até o ponto de autores quererem dizer que ele criou personagens como João das Regras, célebre procurador da causa de D. João, então Mestre de Avis, nas cortes de 1433 (como vê-se em teses já defendidas e conseguidas), pode-se dizer que em suas linhas magistrais estão partes sentidas de um pedaço considerável de memória e cultura. Isto não é retirado dele e por isso calha bem ser lido como historiador de grande valia e, também, enquanto grande literato e mestre das letras em um país que acostumou-se com nomes sublimes como este mais ocidental dos países europeus. 

Vale muito a pena acostumar-se com este grande autor e incentivador da cultura portuguesa e lê-lo com a estima, e sem o preconceito evolucionista, que merece por seus grandes méritos em ensaiar a história da forma como o fez. Isto não pode ser tirado dele, de forma alguma. 


Eustáquio Silva. 

sábado, 29 de abril de 2017

Como a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia

Não é incomum notar o quanto a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia. É comum citar-se a classe burguesa como opressora da classe trabalhadora justamente porque deteria os meios produtivos capitalistas. Nesta óptica os erros comuns da visão socialistas estão totalmente escancarados. Primeiro o eterno e velho maniqueísmo de que há o lado opressor e oprimido, vencedor e vencido, bom e mau. Esta visão está manifesta no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Engels para justificar a visão de partido comunistas que deveriam defender. Nesta visão algo deveria ser tido como "vilão" e este algo, conforme vemos em discursos até hoje proferidos por toda a classe socialista, foi escolhido como capital. Seguiu-se daí uma deturpação histórica inigualável, que nem cronistas poderiam imaginar. Em segundo lugar, e com não menos assombro na dispersão frente aos factos, está a mistura do burguês que tomam com o burguês que ocupou realmente a concepção histórica. 
A princípio burgueses são os habitantes dos Burgos, independentes do domínio feudal do centro da Idade Média, os burgueses eram comerciantes, mas não só, oficiais de trabalhos ou artes manuais e determinadas, conhecidos como mesteirais. Nisto reside uma grande diferença da exploração do trabalhador, pois mesteirais eram trabalhadores, na mais profunda significação da palavra. 

A ver este novo modo de dispor as coisas, nós poderemos facilmente identificar o erro de má fé. Por exemplo, na chamada "revolução de 1383" de Portugal, aqueles que tomaram o partido do regedor e defensor do reino de Portugal, e mestre de Avis, D. João I foram aqueles que compunham o grupo denominado arraia miúda, isto é, aqueles que não eram os nobres de primeiro grupo, mas o poobo ou nobres secundogénitos em diante. Este grupo não era senão composto por habitantes de importantes cidades portuguesas como Lisboa e o Porto. Estas cidades, sem prejuízo algum semântico, eram os "Burgos" principais do reino português à altura, junto a Coimbra, mais reticente à legitimidade da escolha de D. João I para sucessor de seu meio-irmão D. Fernando. 

Este é um exemplo apenas, dentre tantos, para comprovar como um grupo ou uma ideia historiográfica pode afastar-se da realidade. Este afastamento nada tem a ver com dedução oriunda da distância cronológica dos eventos. Tem sim a ver com a profunda irresponsabilidade de leitura para poder dar corpo a uma visão estranha de pensamento histórico. Uma vez que o burguês foi tido como o capitalista, por ser produto de seus esforços, por ter vencido em suas realizações profissionais, e isto parece incomodar o socialismo/comunismo sobremaneira, Devido a isto cabe sempre ao historiador honesto não embarcar neste medonho acervo irreal de contos que querem servir de história. 


Eustáquio Silva . 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Machado de Assis, um monarquista brasileiro

Em 1889 o Brasil vivia a instabilidade política de uma república imposta. Poucos dizem isto ou dão-lhe valor histórico, mas a chamada classe intelectual brasileira, formada não por ideólogos de partidos, mas por pensadores, não deixou isto passar despercebido. Apesar do receio de represálias, de dúvidas sobre o futuro e de incertezas acerca do presente, os intelectuais pretendiam posição, mesmo que a estóica ataraxia fosse a escolha. 

Machado de Assis, monarquista, escritor celebrado mundialmente, cronista de mão cheia, não foi diferente. Em um atmosfera em que o seu vizinho do Cosme Velho, ministro de Dom Pedro II, o senhor Barão de Ladário, era vítima de quatro tiros dos oficiais do marechal Deodoro Fonseca, era bom não mostrar-se afoito demais. Não tinha-se populismo. Não tinha-se afectação nem vanguardismo suspeito. O mundo era outro. E o cronista conservador Machado de Assis sabia disto. Não poderia expor-se demais em sua famosa coluna "Bons Dias!" sobre o assunto, embora não deixasse de demonstrar seu profundo dissabor com os anos militares da coisa pública brasileira. Seria só o primeiro período da república tupiniquim que não disse ainda a que veio e que coisas resolveu dos problemas brasileiros de outrora. 

O confeiteiro indeciso sobre qual termo usar em sua placa se "confeitaria da república" ou "confeitaria do império" são reflexo do desconforto machadiano com os ares republicanos. Se a monarquia constitucional era bem vista pelo imortal escritor brasileiro, não poderia dizer-se o mesmo de sua concepção da república, ainda mais no Brasil. Nosso país era um barril de pólvora em mãos pouco hábeis à administração. Aos grandes produtores e agricultores brasileiros era interessante as liberdades possíveis na ausência do poder moderador. Mas o "bruxo do Cosme Velho" sabia, conforme sua visão aguçada e profunda dos factos, que aquele remédio seria assaz amargo ao povo bestializado brasileiro. A que preço viria esta inovação? Que interesses resolveria? Quais diferenças demasiadas sociais seriam definitivamente solucionadas? Ficava para o cronista carioca uma dúvida cruel. 

Como meteu à boca do Quincas Borba, em Política não se perdoa nem se esquece nada. Assis seria com esta declaração forçada e impopular de república. A monarquia jovem brasileira precisava passar pelos testes de fogo que a república viu-se reprovada em suas duas faces a democracia e a ditadura. O céu deste tipo de liberdade é demasiado duvidoso, ainda mais em cabeças tão refinadas como era a de Machado de Assis. Por isso o monarquista Machado poderia muito bem ser tomado como um ponto de inflexão a esta aceitação imposta dos republicanos desejos de perfeição. A história de personalidades. A construção de um erudito sobre o que está a sua volta não é, deveras, algo que possa-se esquecer. Por isto digam o que quiserem, mas é mais pertinente seguir ao Machado do que a outrem menos cuidadoso com os ventos de liberdade que escravizam mais do que se pensa. 


Eustáquio Silva 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Monarquia no Brasil: uma mudança para melhor.


"O povo é bom. A elite é ruim. Mas se o povo é assim tão bom, por que ele não muda a elite, assim tão ruim?"
José Murilo de Carvalho. 

Com esta frase do célebre escritor do texto Os Bestializados eu inicio a minha provocação: por que não uma monarquia no Brasil? Daí poderemos visualizar algumas respostas, entre irónicas e de desdém, como a de uma perfeita insanidade ou a de um anacronismo completo. Em tempos de um ministro das Relações Exteriores, como o senhor Aloysio Nunes, que chama de "imigrante" a um herdeiro da casa imperial brasileira, nada pode ser ignorado na ignorância das pessoas quanto ao monarquismo. 

Mas cabe a um provocador ser um legítimo conhecedor daqueles que incita e daquilo que traz à tona, senão as coisas tendem ao riso histérico e ao esquecimento. Por que não um caldo histórico? Mesmo que de passagem, nós precisamos levar em conta a razão mor de uma espreitadela na memória. 

Em 1889 o que houve não foi a proclamação de uma república, mas a confirmação de um golpe na monarquia, na jovem monarquia brasileira. Quando os militares, capitaneados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, privaram a Dom Pedro II do Brasil o exercício do poder, não lá sabiam o tamanho do acto que realizavam. Muito menos o povo. O mesmo historiador da epígrafe, no livro supracitado é bem claro quanto ao efémero papel deste brado entre os anónimos brasileiros. Por anos a fio compreenderam aquele evento como mera paragem militar ou como algo incompreensível. Diante da estranheza da causa não é de admirar-se os desvios do efeito. Neste pormenor o que sucedeu-se a 1889 foi uma sucessão de desmandos e desditas que culminaram com a maior crise política e ética de nosso país. 

Nem enquanto parte do reino português e nem como império, o Brasil foi tão roubado e envergonhado. O mesmo chanceler brasileiro e seu partido o PSDB, como também os demais, sob a batuta do Partido dos Trabalhadores, assaltaram as riquezas do país por décadas. Nada os impediu de transformar o povo brasileiro naquele que menos sabe qual a dimensão de seu poder. A Constituição significa apenas um pedaço sem sentido de papel cuja palavra democracia somente quer dizer uma fobia alarmante de largar o poder. A lógica é simples, quase tautológica: se o poder emana do povo (fórmula mor de Rousseau) e eu represento este povo, logo perpetuo-me no poder, através de artifícios e publicidade, mesmo por corrupção e a certeza da impunidade, sobretudo esta derradeira, porque o povo não "muda". Por intermédio de falsas dicotomias e intermináveis apelos ao cinismo, os políticos, desde a "reabertura" apenas planeiam como melhor usurpar o bem público. O povo, tal qual em finais do século XIX, nada parece saber e continua a ser enganado pelas aparências. 

Insistem em fazer da realidade um baú de mentiras. Fazem com que todos acreditem que só na democracia, só nos ventos republicanos, existe verdade. Incutem nos incautos e nos iniciados uma ideia de que monarquia é atraso, é tirania, quando desde Aristóteles podem até ser próximas, mas não equívocas, e assim por diante. O rescaldo disto tudo é que a crise política e económica brasileira são, na verdade, reflexos da imensa irresponsabilidade moral e social que existe entre nós. Uma visão míope e bem afeita aos maneirismos de nossos tempos. Uma visão que acomoda a irrealidade do socialismo. Algo que cheira a mofo, mas todos parecem conformados em preferir do que algo que realmente mude porque resgata muito do compromisso moral perdido. 

Quando vemos a um Dom Pedro II imerso no dever cívico de seguir uma Constituição correcta e bem disposta ao cidadão de nossos dias, nós perguntamos: como chegamos a este ponto? É fácil perceber. Nossa "revolução de 1789" deu-se em 1889, com um século de atraso e sob a batuta de um golpe. Este imenso emaranhado de coisas fez com que o mal amanhado de nosso tempo fosse adornar de democracia todos os autoritarismos e transformar em perigo tudo o que, de facto, tenha dever a cumprir com os acontecimentos históricos. Preferimos uma república do Caixa 2 a uma monarquia séria, como sempre foi, com poucas excepções, mundo afora. Não é anacronismo, mas conservar aquilo que é bom. Ninguém pode acusar a um monárquico de ser saudosista. Não é o caso de repetir "88" sempre que alguém mal usar o termo "democracia" ou "república". Trata-se de acomodar com alguma ponderação aquilo que melhor posso chamar de termo medianeiro moral. Será que é difícil enxergar assim? Ou precisaremos de um país totalmente caído para perceber a isto? 



Eustáquio Silva 

domingo, 16 de abril de 2017

A corrupção criou um Brasil diferente - PARTE 1

Este texto é acima de tudo um lamento. O Brasil afundou totalmente na corrupção. Da corrupção quotidiana (até mesmo louvada como virtude na frase "o mundo é dos mais espertos") à corrupção institucional que apodreceu os poderes republicanos tupiniquins. 

A verdade é que nos últimos trinta anos, sem trégua, o país foi roubado. O povo foi assaltado e viu criar-se, com o PT e empreiteiras como a Odebrecht, mais a companhia de todos os partidos (de PSDB, DEM até o PC do B, PSB, PDT e REDE) a república cleptocrata do Brasil. 

Certamente as bombas das delações premiadas, o cinismo dos políticos e o envolvimento da Imprensa, da classe artística, de sectores da sociedade, até de religiosos, neste esquema assusta e não tem precedentes reais no Brasil. A história brasileira terá outra forma de ser contada. Os livros ideológicos não darão conta de garantir mitos como Lula, o conhecido "pai dos pobres" que agora, nos depoimentos, tornou-se o AMIGO. Neste sentimento de incredulidade pairam todos os ex-presidentes vivos enquanto possíveis criminosos. E eu digo possível porque não quero ter problemas com estas pessoas ao terem surtos de santidade doentia. 

A Lava Jato desafia uma suposta bipolaridade criada entre PT e PSDB. Expõe que acordos, compra de votos, abusos de autoridade e má fé e imoralidade sempre foram marcas da chamada "democracia" em solo brasileiro. A absoluta incultura do brasileiro ajudou a imprensa e os corruptos a manter em silêncio por tanto tempo o fruto de seu roubo. Agora acordar é difícil. O povo foi ensinado a viver à base de fortes remédios controlados que tiram totalmente o sentido de realidade de seu usuário. Anestesiam a sua percepção das coisas. Anulam ao raciocínio. 

Em outros textos irei, com mais informações e esmero, dizer como o Brasil será outro após estas operações da Polícia Federal, Ministério Público e parte do Judiciário. Pode-se adiantar que formadores de opinião não terão vida fácil. Agora é difícil demais fazer com que qualquer pessoa consciente dê crédito à cantilena de golpe, de medo de Lula, de ódio aos pobres e ao PT. Prova-se que todos estão nos mesmos porões amorfos e imundos da realidade corrupta brasileira. PT, PSDB, PP, REDE, DEM, PSB, PDT, PSOL, PC do B, dentre tantos, são todos reflexos do colapso republicano do este sim golpe de 1889. 

Nada foi a um nível tão baixo e apodreceu tanto quanto a esperança do povo brasileiro. Todo ido ao ralo e a história não pode ignorar tal fato. As próximas gerações de formados em história no Brasil têm o dever moral de livrarem-se da doutrinação e parar de seu panfletismo socialista. Não há espaço para distorção indecente da história. Pensamento crítico deve vir acompanhado de valores sérios e não de selectivismo delirante. A história não irá perdoar ninguém. A história é feita pelo discurso sério de homens que viram e ainda verão o país virar as costas para seu povo num esquema internacional sem precedentes de compra de tudo, menos da dignidade e da cabeça tranquila de alguns gatos pingados que ainda podem mudar este país chamado Brasil. 


Eustáquio Silva 


segunda-feira, 10 de abril de 2017

História Contemporânea - A cada conto contado um ponto


Não há ser humano razoavelmente informado que não tenha ouvido, nos últimos meses, algo aterrador sobre a Síria. Que não tenha lido sobre as ofensivas do Estado Islâmico Europa adentro, mesmo com toda a blindagem da imprensa e de partidos socialistas e comunistas das intenções da chamada "religião da paz". Muitos também acusaram ao presidente recém eleito Donald Trump de ser um animador de uma guerra reflexo da vacilante e débil política externa do seu antecessor Barack Obama. Mas numa coisa é-se uníssono, desde os mais bem intencionados até os que estão completamente equivocados sobre a realidade: conta-se a história do oriente médio hoje como a de um cabo de guerra emocional. Cada um assume um lado e todos os lados são contra Israel que, nesta imensidão de terra (mapa acima) é o único pedaço não muçulmano e constantemente atacado pelos demais. 

A Síria vive uma das mais terríveis e sangrentas guerras internas conhecidas no mundo. De lados igualmente violentos e nada dispostos a poupar o povo. É bem verdade que em uma guerra sempre haverá perdas consideráveis de inocentes incapazes de fugir dela. Mas o que há ali é algo maior: de um lado a ofensiva rebelde, em muito treinada e financiada pelos EUA, nos últimos anos, cuja única vontade é o poder. Aparentemente, em uma lógica simplista, seriam os mocinhos, mas em nada merecem esta alcunha. Movimentam-se livremente de acordo com o sabor dos ventos de seus desejos. Não pode-se esperar que estes rebeldes melhorem a condição do país. Eles são mais um eco dos interesses políticos de potências externas por longos anos do que um potencial representante dos anseios populares. Esta sensação dá-se cada vez que este grupo, bem afeito ao anonimato e à imprecisão, sobretudo quanto a seus objectivos, são questionados e aparecem no cenário da imprensa internacional. 

O ditador, condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo então presidente Lula no Brasil, Assad, que sucedeu ao seu pai num governo que não aceita respeitar regra alguma política internacional, é claramente um lado ruim. Outros grandes aliados de seu regime são a Rússia e o Irão, que recentemente teve financiamento para supostamente abortar seus planos nucleares por parte da ONU. ONU que é outra página à parte de aumento do conto sobre a Síria. Este eixo que apoia ao ditador tem responsabilidade no ataque com armas químicas sobre a população que fez com que os EUA reagissem dias atrás. A realidade é que não seria a primeira vez que o ditador sírio teria usado armas químicas contra seu próprio povo. Este episódio é desumano, pois denota um governante que mata a seu próprio povo da forma mais cruel se sua autoridade for questionada. Isto não é devidamente mostrado na media. A então candidata à presidência dos EUA, a democrata Hillary Clinton, em momento algum de sua campanha subiu o tom nestas questão o bastante para dizer que mudaria o desastre de seu colega neste campo. Obama simplesmente foi desacertado em tudo que fez em especial neste médio oriente. E nada foi efectivamente feito em relação a isto, ao menos em âmbito dos órgãos internacionais e grande imprensa mundo afora. 

E, finalmente, na parte final deste enorme puzzle, está o Estado Islâmico. Atacou recentemente a base dos EUA na Síria. Curiosamente não o fez em oito anos da administração Obama, mas em meses da administração republicana já foi marcar o seu território neste país. O Daesh move-se com crueldade já conhecida. Não alia-se ao ditador sírio, porque quer a morte deste também. Não alia-se aos já tratados rebeldes e não alia-se a qualquer denominação judaico-cristã. São os grandes responsáveis pelo clima de primitivismo e extrema violência que assistimos com terrorismo mitigado mundo afora. Nestes dias mataram centena de pessoas cristãs aquando da semana de Páscoa, simbolicamente o coração da fé cristã mundo afora, sem pudor algum. A história oficial de grandes meios de comunicação selecciona claramente o que falar deste grupo. Aquando do atentado ao jornal de sátiras francês Charlie Hebdo, única tentativa de fazer-se piada com Maomé, com resultados conhecidos, criou uma comoção geral. Em Egipto, nas igrejas atingidas pela acção do EI, pouco fala ou usa de linguagem questionável e demonstra toda o desconforto com a situação. 

Mas tudo isto é visível pela falta de controlo que hoje em dia tem-se com relação à verdade. Todos preferem inventar e mentir sobre a história actual ao invés de mostrar ao povo aquilo que realmente há. Hoje em dia preferem distorcer factos e esconder partes consideráveis da narrativa com o intuito de fazer bandidos e eleger mocinhos. A estratégia é muitíssimo conhecida. O velho "assassínio de reputações", junto à eleição não justificada de um lado como eterna vítima (basta ver a violência da campanha pela liberdade da Palestina em relação a Israel) e de outro como algoz e, por derradeiro, do silêncio e curva moral sobre o lado a atacar que temos a noção do fosso que estamos. Ninguém está imune a isto. É lamentável, mas é realmente isto que é visto. A Síria segue a linha da vez. A Venezuela, a seu turno, assim como Cuba e Coreia do Norte, já foram assim. O Irão já foi tentado ser visto como avançado, mesmo que ainda a condenar mulheres a serem condenadas por serem abusadas sexualmente, entre outros atrasos que feministas preferem calar-se. Mas isto é sinal de historiadores sem carácter e com interesse no jogo. Escondem-se por detrás do mandamento de Habermas de que não há conhecimento sem interesse e aproveitam para fabricar informações e criar um mundo artificial. Este mundo imagem de um simulacro, de uma sombra, de uma dobra reflecte, opaco, nas lágrimas sírias e na fraudulenta política humanitária de imigração como grande salvação da pátria. Isto é populismo da pior espécie. Isto é desfazer de forma irracional a tudo que se pode ver. Retrato infiel de um tempo que antes quer morrer ignorante do que saber o que realmente está lá fora. 


Eustáquio Silva  

terça-feira, 4 de abril de 2017

A história no umbigo da revolução francesa

Há as histórias que nos contam, cheia de lacunas documentais e no calor de inspirações políticas, e a história dos factos e pessoas. Algo que orbita entre o sonhado e o real.

Concordo, em algum grau, com o historiador francês Paul Marie Veyne quando este diz que a história é um discurso das especialidades, e não do universal.  Entretanto, isto não autoriza-me a perceber a história enquanto universalização de uma visão apenas minha ou de um grupo ao qual pertenço dos eventos. Alguém que tente universalizar a história decai em um erro grandioso de assassinar a sua força motriz. Neste campo está e orbita a aura sacrossanta da Revolução Francesa

Muitos a colocam como marco iniciador, ou mais propriamente processo iniciador, da Idade Contemporânea. Por suas ideias e pela sua forma de pensar completamente diferente do Antigo Regime que queria substituir, teve em seu ápice de 1789 uma reviravolta que muitos chamam de vanguardista da história. Mas por qual isto se dá? 

Roger Chartier, em seu livro As origens culturais da Revolução Francesa (em especial no capítulo dedicado as relações existentes entre o iluminismo e a revolução) distribui aquilo que acha ser um combinado de razões que culminaram com a revolução:

- As ideias iluministas circulavam da elite à burguesia, da burguesia o povo com enorme facilidade. Vale ainda ressaltar que os diversos e históricos processos de desentendimento entre nobres e a realeza, cada vez mais absoluta por toda a idade moderna, agravou enormemente a convivência e evidenciou grandemente a insatisfação dos primeiros para com os monarcas. Não seria são ou honesto dizer que a execução do rei Luís XVI em 1793 em França, derrubando o último centro forte do antigo regime, não teve motivações de grupos sociais e não apenas fagulhas da ideologia progressista do iluminismo. 

- Em Paris o movimento de difusão dessas ideias foi centrífugo, isto é, partiu do centro, do coração da "cidade luz", em direcção ao que chamaríamos de periferias, o que evidencia o ponto anterior quanto ao critério económico da classe social apoiante. 

- O iluminismo, enquanto ideologia, enquanto mote claro de discordância frente ao absolutismo, citado no ponto primeiro, firmou-se como um sentimento do povo de pretensa libertação. Aqui estão em embrião o sentimento político mor da democracia, que é o de que estamos melhor quando alguém representa-nos no exercício do poder ou quando nós mesmos o exercemos. Não é difícil lembrar que com a propensa incompatibilidade conceptual entre liberdade e igualdade em simultâneo, a ditadura de um pensamento hegemónico sobressaiu-se, de facto, até que a ditadura notória no terror jacobino ficou clara. 

Ademais, a somar-se a estas considerações de Chartier tem o facto comum de que foi na revolução que foi a camisa de força do espectro partidário em "direita, esquerda e centro", que assassinou completamente pensamentos contrários. Os rótulos surgiam com força e isto condenou fortemente toda a política, toda a consideração social e jurídica, praticamente toda as ciências sociais e sociais aplicadas a orbitar em torno do umbigo da revolução francesa. 

Nada passou à mítica história das coisas com tanta força do que o fascínio de muitos por esta época histórica. Mesmo o rei frustrado, citado pelo pensador conservador português João Pereira Coutinho, que repetia em delírio "oitenta e oito", como apelo desespero pelo que tinha antes da revolução francesa, nada mudou. O que vemos hoje é uma incapacidade completa de pensar-se para além de 1789. De tal forma as coisas foram-se dando que posso bem chamar esta época histórica de "heliocentrismo contemporâneo" através do qual ninguém vê. E complemento ao dizer que por detrás disto nasce o elogio à revolução como vanguarda, um contrasenso lógico, diga-se de passagem, que mesmo alusões como a de Edmund Burke e Alexis de Tocqueville fizeram abrandar. Este desejo pela ruptura pode ser lido como aquilo que separou o pescoço do monarca francês de sua cabeça. Como símbolo violento de que o mundo agora perdia uma forma de pensar rumo a algo que tornou-se mais despótico e impositor do que qualquer déspota ou tirano que o mundo tenha conhecido. Até então o que vivemos é um longo século XVIII, um tempo ainda "iluminado" pela imposição da liberdade, igualdade e fraternidade. 


Eustáquio Silva