quinta-feira, 30 de março de 2017

O objectivo do Blog

Por que este blog existe? A um historiador não é diferente ter que responder pela origem e expressar alguma coisa acerca da causa de dedicar um pouco de seu escasso tempo em publicar mensagens virtuais aparentemente diferentes de seus termos de estudo. Este exercício ou actividade extra, entretanto, nada mais é do que aquilo que todo e qualquer estudioso sério deve ter: bases epistemológicas (e não ideológicas). Limpar e definir esta fronteira é, ao nosso ver, o mais claro filtro do historiador com ou sem ideologia. E que fique claro que somos realmente daqueles que pensam que história não está no mesmo sítio que ideologias. Infelizmente em diversos países história tornou-se sinónimo de doutrinação, de desinformação e de discursos de cunho político. O discurso histórico foi contagiado pelo marxismo cultural em tão grande escala que pode-se dizer que é o nicho por excelência de entrada deste aparelhamento mental nas escolas, na sociedade, na cultura em geral. 

Exemplo desta transformação (para pior) da história é a frase inicial do Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels (1848). Lê-se neste texto por natureza avesso a tudo que é considerado sadiamente como história que a história sempre foi uma luta de classes, opressores e oprimidos, vencedores e vencidos. Esta clara visão polarizadora da disciplina história molda claramente esta ciência (sempre com certo receio a não afirmar este estatuto científico absoluto da história, dado aos movimentos positivistas do século XIX, por curiosidade o mesmo século do texto marxista) para ler aquilo que se quer daquilo que já se passou. Não é simplesmente reescrever a história, pois todos sabemos isto ser impossível, mas é reescrever a interpretação dos factos e acções passadas de acordo com uma ideologia bastante demarcada: a do proletariado, a do comunismo, a do socialismo lato senso. 

Certamente a continuidade que o marxismo cultural deu ao velho marxismo parte de pressupostos semelhantes. Walter Benjamin fala em que até agora contou-se a história dos "vencedores", não obstante é preciso, para já, começar a contar-se a história dos "vencidos". A bipolarização anterior foi remodelada, porém não deixou de existir. Este partido de assumir lados na história é o que determina hoje esta disciplina. Um professor assassina reputações assim como reconduz outras à santidade de acordo com seu modelo político. Por isto que somente historiadores claramente ligados ao establishment ou ao status quo que foi imposto pode relatar a memória de um povo, de um grupo social, de instituições (eclesiásticas ou não) e assim por diante. Até hoje a história medieval, disposta em pouco mais de quatro páginas de um livro escolar, resume-se a palavras chave como feudalismo, como inquisição e como atraso ou "idade das trevas". Estas concepções já são nossas conhecidas desde o Iluminismo e acompanham-nos até hoje justamente pela porta de entrada desta ideologia dominante. Aliás foi a Revolução Francesa e suas consequências aquilo que tornou famosa a posição exageradamente interessada também na história. 

Se algum dia a história foi mítica, e de certa forma, pelas mãos de muitos ainda continua a ser, e passou a ser necessária como repositório de nossa cultura, de nossas acções e tudo o mais, ela passou a despertar a cobiça de oportunistas calejados em ser politizados cuja única intenção é justificar as suas crenças. Este sequestro, este rapto da história para fins ideológicos deve e tem de ser sempre desmascarado. E para mim este blog, de forma directa ou indirecta, pretende ser mais um instrumento neste favor. Não trata-se da ideologia de não ter ideologia. Trata-se da necessidade imperativa de fugir à vala comum. De sair do mesmo. De recuperar a história de todas as distorções e mentiras em que a meteram conscientemente. Tomara que seja possível recuperá-la para ser discutida e nisto conto não só com grandes mestres, mas com enormes ajudas todas estas relativas a vocês leitores e críticos. Se em algum mundo possível é necessário que seja atento este é no que refere-se a como contam para nós sobre o passado. Pois como diz-nos o historiador francês da nobreza, professor Aurell: só assim podemos dominar ao presente e projectar ao futuro. 



Eustáquio Silva 

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