terça-feira, 4 de abril de 2017

A história no umbigo da revolução francesa

Há as histórias que nos contam, cheia de lacunas documentais e no calor de inspirações políticas, e a história dos factos e pessoas. Algo que orbita entre o sonhado e o real.

Concordo, em algum grau, com o historiador francês Paul Marie Veyne quando este diz que a história é um discurso das especialidades, e não do universal.  Entretanto, isto não autoriza-me a perceber a história enquanto universalização de uma visão apenas minha ou de um grupo ao qual pertenço dos eventos. Alguém que tente universalizar a história decai em um erro grandioso de assassinar a sua força motriz. Neste campo está e orbita a aura sacrossanta da Revolução Francesa

Muitos a colocam como marco iniciador, ou mais propriamente processo iniciador, da Idade Contemporânea. Por suas ideias e pela sua forma de pensar completamente diferente do Antigo Regime que queria substituir, teve em seu ápice de 1789 uma reviravolta que muitos chamam de vanguardista da história. Mas por qual isto se dá? 

Roger Chartier, em seu livro As origens culturais da Revolução Francesa (em especial no capítulo dedicado as relações existentes entre o iluminismo e a revolução) distribui aquilo que acha ser um combinado de razões que culminaram com a revolução:

- As ideias iluministas circulavam da elite à burguesia, da burguesia o povo com enorme facilidade. Vale ainda ressaltar que os diversos e históricos processos de desentendimento entre nobres e a realeza, cada vez mais absoluta por toda a idade moderna, agravou enormemente a convivência e evidenciou grandemente a insatisfação dos primeiros para com os monarcas. Não seria são ou honesto dizer que a execução do rei Luís XVI em 1793 em França, derrubando o último centro forte do antigo regime, não teve motivações de grupos sociais e não apenas fagulhas da ideologia progressista do iluminismo. 

- Em Paris o movimento de difusão dessas ideias foi centrífugo, isto é, partiu do centro, do coração da "cidade luz", em direcção ao que chamaríamos de periferias, o que evidencia o ponto anterior quanto ao critério económico da classe social apoiante. 

- O iluminismo, enquanto ideologia, enquanto mote claro de discordância frente ao absolutismo, citado no ponto primeiro, firmou-se como um sentimento do povo de pretensa libertação. Aqui estão em embrião o sentimento político mor da democracia, que é o de que estamos melhor quando alguém representa-nos no exercício do poder ou quando nós mesmos o exercemos. Não é difícil lembrar que com a propensa incompatibilidade conceptual entre liberdade e igualdade em simultâneo, a ditadura de um pensamento hegemónico sobressaiu-se, de facto, até que a ditadura notória no terror jacobino ficou clara. 

Ademais, a somar-se a estas considerações de Chartier tem o facto comum de que foi na revolução que foi a camisa de força do espectro partidário em "direita, esquerda e centro", que assassinou completamente pensamentos contrários. Os rótulos surgiam com força e isto condenou fortemente toda a política, toda a consideração social e jurídica, praticamente toda as ciências sociais e sociais aplicadas a orbitar em torno do umbigo da revolução francesa. 

Nada passou à mítica história das coisas com tanta força do que o fascínio de muitos por esta época histórica. Mesmo o rei frustrado, citado pelo pensador conservador português João Pereira Coutinho, que repetia em delírio "oitenta e oito", como apelo desespero pelo que tinha antes da revolução francesa, nada mudou. O que vemos hoje é uma incapacidade completa de pensar-se para além de 1789. De tal forma as coisas foram-se dando que posso bem chamar esta época histórica de "heliocentrismo contemporâneo" através do qual ninguém vê. E complemento ao dizer que por detrás disto nasce o elogio à revolução como vanguarda, um contrasenso lógico, diga-se de passagem, que mesmo alusões como a de Edmund Burke e Alexis de Tocqueville fizeram abrandar. Este desejo pela ruptura pode ser lido como aquilo que separou o pescoço do monarca francês de sua cabeça. Como símbolo violento de que o mundo agora perdia uma forma de pensar rumo a algo que tornou-se mais despótico e impositor do que qualquer déspota ou tirano que o mundo tenha conhecido. Até então o que vivemos é um longo século XVIII, um tempo ainda "iluminado" pela imposição da liberdade, igualdade e fraternidade. 


Eustáquio Silva

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