sábado, 29 de abril de 2017

Como a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia

Não é incomum notar o quanto a historiografia marxista deturpou o conceito de burguesia. É comum citar-se a classe burguesa como opressora da classe trabalhadora justamente porque deteria os meios produtivos capitalistas. Nesta óptica os erros comuns da visão socialistas estão totalmente escancarados. Primeiro o eterno e velho maniqueísmo de que há o lado opressor e oprimido, vencedor e vencido, bom e mau. Esta visão está manifesta no Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Engels para justificar a visão de partido comunistas que deveriam defender. Nesta visão algo deveria ser tido como "vilão" e este algo, conforme vemos em discursos até hoje proferidos por toda a classe socialista, foi escolhido como capital. Seguiu-se daí uma deturpação histórica inigualável, que nem cronistas poderiam imaginar. Em segundo lugar, e com não menos assombro na dispersão frente aos factos, está a mistura do burguês que tomam com o burguês que ocupou realmente a concepção histórica. 
A princípio burgueses são os habitantes dos Burgos, independentes do domínio feudal do centro da Idade Média, os burgueses eram comerciantes, mas não só, oficiais de trabalhos ou artes manuais e determinadas, conhecidos como mesteirais. Nisto reside uma grande diferença da exploração do trabalhador, pois mesteirais eram trabalhadores, na mais profunda significação da palavra. 

A ver este novo modo de dispor as coisas, nós poderemos facilmente identificar o erro de má fé. Por exemplo, na chamada "revolução de 1383" de Portugal, aqueles que tomaram o partido do regedor e defensor do reino de Portugal, e mestre de Avis, D. João I foram aqueles que compunham o grupo denominado arraia miúda, isto é, aqueles que não eram os nobres de primeiro grupo, mas o poobo ou nobres secundogénitos em diante. Este grupo não era senão composto por habitantes de importantes cidades portuguesas como Lisboa e o Porto. Estas cidades, sem prejuízo algum semântico, eram os "Burgos" principais do reino português à altura, junto a Coimbra, mais reticente à legitimidade da escolha de D. João I para sucessor de seu meio-irmão D. Fernando. 

Este é um exemplo apenas, dentre tantos, para comprovar como um grupo ou uma ideia historiográfica pode afastar-se da realidade. Este afastamento nada tem a ver com dedução oriunda da distância cronológica dos eventos. Tem sim a ver com a profunda irresponsabilidade de leitura para poder dar corpo a uma visão estranha de pensamento histórico. Uma vez que o burguês foi tido como o capitalista, por ser produto de seus esforços, por ter vencido em suas realizações profissionais, e isto parece incomodar o socialismo/comunismo sobremaneira, Devido a isto cabe sempre ao historiador honesto não embarcar neste medonho acervo irreal de contos que querem servir de história. 


Eustáquio Silva . 

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