segunda-feira, 10 de abril de 2017

História Contemporânea - A cada conto contado um ponto


Não há ser humano razoavelmente informado que não tenha ouvido, nos últimos meses, algo aterrador sobre a Síria. Que não tenha lido sobre as ofensivas do Estado Islâmico Europa adentro, mesmo com toda a blindagem da imprensa e de partidos socialistas e comunistas das intenções da chamada "religião da paz". Muitos também acusaram ao presidente recém eleito Donald Trump de ser um animador de uma guerra reflexo da vacilante e débil política externa do seu antecessor Barack Obama. Mas numa coisa é-se uníssono, desde os mais bem intencionados até os que estão completamente equivocados sobre a realidade: conta-se a história do oriente médio hoje como a de um cabo de guerra emocional. Cada um assume um lado e todos os lados são contra Israel que, nesta imensidão de terra (mapa acima) é o único pedaço não muçulmano e constantemente atacado pelos demais. 

A Síria vive uma das mais terríveis e sangrentas guerras internas conhecidas no mundo. De lados igualmente violentos e nada dispostos a poupar o povo. É bem verdade que em uma guerra sempre haverá perdas consideráveis de inocentes incapazes de fugir dela. Mas o que há ali é algo maior: de um lado a ofensiva rebelde, em muito treinada e financiada pelos EUA, nos últimos anos, cuja única vontade é o poder. Aparentemente, em uma lógica simplista, seriam os mocinhos, mas em nada merecem esta alcunha. Movimentam-se livremente de acordo com o sabor dos ventos de seus desejos. Não pode-se esperar que estes rebeldes melhorem a condição do país. Eles são mais um eco dos interesses políticos de potências externas por longos anos do que um potencial representante dos anseios populares. Esta sensação dá-se cada vez que este grupo, bem afeito ao anonimato e à imprecisão, sobretudo quanto a seus objectivos, são questionados e aparecem no cenário da imprensa internacional. 

O ditador, condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo então presidente Lula no Brasil, Assad, que sucedeu ao seu pai num governo que não aceita respeitar regra alguma política internacional, é claramente um lado ruim. Outros grandes aliados de seu regime são a Rússia e o Irão, que recentemente teve financiamento para supostamente abortar seus planos nucleares por parte da ONU. ONU que é outra página à parte de aumento do conto sobre a Síria. Este eixo que apoia ao ditador tem responsabilidade no ataque com armas químicas sobre a população que fez com que os EUA reagissem dias atrás. A realidade é que não seria a primeira vez que o ditador sírio teria usado armas químicas contra seu próprio povo. Este episódio é desumano, pois denota um governante que mata a seu próprio povo da forma mais cruel se sua autoridade for questionada. Isto não é devidamente mostrado na media. A então candidata à presidência dos EUA, a democrata Hillary Clinton, em momento algum de sua campanha subiu o tom nestas questão o bastante para dizer que mudaria o desastre de seu colega neste campo. Obama simplesmente foi desacertado em tudo que fez em especial neste médio oriente. E nada foi efectivamente feito em relação a isto, ao menos em âmbito dos órgãos internacionais e grande imprensa mundo afora. 

E, finalmente, na parte final deste enorme puzzle, está o Estado Islâmico. Atacou recentemente a base dos EUA na Síria. Curiosamente não o fez em oito anos da administração Obama, mas em meses da administração republicana já foi marcar o seu território neste país. O Daesh move-se com crueldade já conhecida. Não alia-se ao ditador sírio, porque quer a morte deste também. Não alia-se aos já tratados rebeldes e não alia-se a qualquer denominação judaico-cristã. São os grandes responsáveis pelo clima de primitivismo e extrema violência que assistimos com terrorismo mitigado mundo afora. Nestes dias mataram centena de pessoas cristãs aquando da semana de Páscoa, simbolicamente o coração da fé cristã mundo afora, sem pudor algum. A história oficial de grandes meios de comunicação selecciona claramente o que falar deste grupo. Aquando do atentado ao jornal de sátiras francês Charlie Hebdo, única tentativa de fazer-se piada com Maomé, com resultados conhecidos, criou uma comoção geral. Em Egipto, nas igrejas atingidas pela acção do EI, pouco fala ou usa de linguagem questionável e demonstra toda o desconforto com a situação. 

Mas tudo isto é visível pela falta de controlo que hoje em dia tem-se com relação à verdade. Todos preferem inventar e mentir sobre a história actual ao invés de mostrar ao povo aquilo que realmente há. Hoje em dia preferem distorcer factos e esconder partes consideráveis da narrativa com o intuito de fazer bandidos e eleger mocinhos. A estratégia é muitíssimo conhecida. O velho "assassínio de reputações", junto à eleição não justificada de um lado como eterna vítima (basta ver a violência da campanha pela liberdade da Palestina em relação a Israel) e de outro como algoz e, por derradeiro, do silêncio e curva moral sobre o lado a atacar que temos a noção do fosso que estamos. Ninguém está imune a isto. É lamentável, mas é realmente isto que é visto. A Síria segue a linha da vez. A Venezuela, a seu turno, assim como Cuba e Coreia do Norte, já foram assim. O Irão já foi tentado ser visto como avançado, mesmo que ainda a condenar mulheres a serem condenadas por serem abusadas sexualmente, entre outros atrasos que feministas preferem calar-se. Mas isto é sinal de historiadores sem carácter e com interesse no jogo. Escondem-se por detrás do mandamento de Habermas de que não há conhecimento sem interesse e aproveitam para fabricar informações e criar um mundo artificial. Este mundo imagem de um simulacro, de uma sombra, de uma dobra reflecte, opaco, nas lágrimas sírias e na fraudulenta política humanitária de imigração como grande salvação da pátria. Isto é populismo da pior espécie. Isto é desfazer de forma irracional a tudo que se pode ver. Retrato infiel de um tempo que antes quer morrer ignorante do que saber o que realmente está lá fora. 


Eustáquio Silva  

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