terça-feira, 25 de abril de 2017

Machado de Assis, um monarquista brasileiro

Em 1889 o Brasil vivia a instabilidade política de uma república imposta. Poucos dizem isto ou dão-lhe valor histórico, mas a chamada classe intelectual brasileira, formada não por ideólogos de partidos, mas por pensadores, não deixou isto passar despercebido. Apesar do receio de represálias, de dúvidas sobre o futuro e de incertezas acerca do presente, os intelectuais pretendiam posição, mesmo que a estóica ataraxia fosse a escolha. 

Machado de Assis, monarquista, escritor celebrado mundialmente, cronista de mão cheia, não foi diferente. Em um atmosfera em que o seu vizinho do Cosme Velho, ministro de Dom Pedro II, o senhor Barão de Ladário, era vítima de quatro tiros dos oficiais do marechal Deodoro Fonseca, era bom não mostrar-se afoito demais. Não tinha-se populismo. Não tinha-se afectação nem vanguardismo suspeito. O mundo era outro. E o cronista conservador Machado de Assis sabia disto. Não poderia expor-se demais em sua famosa coluna "Bons Dias!" sobre o assunto, embora não deixasse de demonstrar seu profundo dissabor com os anos militares da coisa pública brasileira. Seria só o primeiro período da república tupiniquim que não disse ainda a que veio e que coisas resolveu dos problemas brasileiros de outrora. 

O confeiteiro indeciso sobre qual termo usar em sua placa se "confeitaria da república" ou "confeitaria do império" são reflexo do desconforto machadiano com os ares republicanos. Se a monarquia constitucional era bem vista pelo imortal escritor brasileiro, não poderia dizer-se o mesmo de sua concepção da república, ainda mais no Brasil. Nosso país era um barril de pólvora em mãos pouco hábeis à administração. Aos grandes produtores e agricultores brasileiros era interessante as liberdades possíveis na ausência do poder moderador. Mas o "bruxo do Cosme Velho" sabia, conforme sua visão aguçada e profunda dos factos, que aquele remédio seria assaz amargo ao povo bestializado brasileiro. A que preço viria esta inovação? Que interesses resolveria? Quais diferenças demasiadas sociais seriam definitivamente solucionadas? Ficava para o cronista carioca uma dúvida cruel. 

Como meteu à boca do Quincas Borba, em Política não se perdoa nem se esquece nada. Assis seria com esta declaração forçada e impopular de república. A monarquia jovem brasileira precisava passar pelos testes de fogo que a república viu-se reprovada em suas duas faces a democracia e a ditadura. O céu deste tipo de liberdade é demasiado duvidoso, ainda mais em cabeças tão refinadas como era a de Machado de Assis. Por isso o monarquista Machado poderia muito bem ser tomado como um ponto de inflexão a esta aceitação imposta dos republicanos desejos de perfeição. A história de personalidades. A construção de um erudito sobre o que está a sua volta não é, deveras, algo que possa-se esquecer. Por isto digam o que quiserem, mas é mais pertinente seguir ao Machado do que a outrem menos cuidadoso com os ventos de liberdade que escravizam mais do que se pensa. 


Eustáquio Silva 

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