quarta-feira, 19 de abril de 2017

Monarquia no Brasil: uma mudança para melhor.


"O povo é bom. A elite é ruim. Mas se o povo é assim tão bom, por que ele não muda a elite, assim tão ruim?"
José Murilo de Carvalho. 

Com esta frase do célebre escritor do texto Os Bestializados eu inicio a minha provocação: por que não uma monarquia no Brasil? Daí poderemos visualizar algumas respostas, entre irónicas e de desdém, como a de uma perfeita insanidade ou a de um anacronismo completo. Em tempos de um ministro das Relações Exteriores, como o senhor Aloysio Nunes, que chama de "imigrante" a um herdeiro da casa imperial brasileira, nada pode ser ignorado na ignorância das pessoas quanto ao monarquismo. 

Mas cabe a um provocador ser um legítimo conhecedor daqueles que incita e daquilo que traz à tona, senão as coisas tendem ao riso histérico e ao esquecimento. Por que não um caldo histórico? Mesmo que de passagem, nós precisamos levar em conta a razão mor de uma espreitadela na memória. 

Em 1889 o que houve não foi a proclamação de uma república, mas a confirmação de um golpe na monarquia, na jovem monarquia brasileira. Quando os militares, capitaneados pelo Marechal Deodoro da Fonseca, privaram a Dom Pedro II do Brasil o exercício do poder, não lá sabiam o tamanho do acto que realizavam. Muito menos o povo. O mesmo historiador da epígrafe, no livro supracitado é bem claro quanto ao efémero papel deste brado entre os anónimos brasileiros. Por anos a fio compreenderam aquele evento como mera paragem militar ou como algo incompreensível. Diante da estranheza da causa não é de admirar-se os desvios do efeito. Neste pormenor o que sucedeu-se a 1889 foi uma sucessão de desmandos e desditas que culminaram com a maior crise política e ética de nosso país. 

Nem enquanto parte do reino português e nem como império, o Brasil foi tão roubado e envergonhado. O mesmo chanceler brasileiro e seu partido o PSDB, como também os demais, sob a batuta do Partido dos Trabalhadores, assaltaram as riquezas do país por décadas. Nada os impediu de transformar o povo brasileiro naquele que menos sabe qual a dimensão de seu poder. A Constituição significa apenas um pedaço sem sentido de papel cuja palavra democracia somente quer dizer uma fobia alarmante de largar o poder. A lógica é simples, quase tautológica: se o poder emana do povo (fórmula mor de Rousseau) e eu represento este povo, logo perpetuo-me no poder, através de artifícios e publicidade, mesmo por corrupção e a certeza da impunidade, sobretudo esta derradeira, porque o povo não "muda". Por intermédio de falsas dicotomias e intermináveis apelos ao cinismo, os políticos, desde a "reabertura" apenas planeiam como melhor usurpar o bem público. O povo, tal qual em finais do século XIX, nada parece saber e continua a ser enganado pelas aparências. 

Insistem em fazer da realidade um baú de mentiras. Fazem com que todos acreditem que só na democracia, só nos ventos republicanos, existe verdade. Incutem nos incautos e nos iniciados uma ideia de que monarquia é atraso, é tirania, quando desde Aristóteles podem até ser próximas, mas não equívocas, e assim por diante. O rescaldo disto tudo é que a crise política e económica brasileira são, na verdade, reflexos da imensa irresponsabilidade moral e social que existe entre nós. Uma visão míope e bem afeita aos maneirismos de nossos tempos. Uma visão que acomoda a irrealidade do socialismo. Algo que cheira a mofo, mas todos parecem conformados em preferir do que algo que realmente mude porque resgata muito do compromisso moral perdido. 

Quando vemos a um Dom Pedro II imerso no dever cívico de seguir uma Constituição correcta e bem disposta ao cidadão de nossos dias, nós perguntamos: como chegamos a este ponto? É fácil perceber. Nossa "revolução de 1789" deu-se em 1889, com um século de atraso e sob a batuta de um golpe. Este imenso emaranhado de coisas fez com que o mal amanhado de nosso tempo fosse adornar de democracia todos os autoritarismos e transformar em perigo tudo o que, de facto, tenha dever a cumprir com os acontecimentos históricos. Preferimos uma república do Caixa 2 a uma monarquia séria, como sempre foi, com poucas excepções, mundo afora. Não é anacronismo, mas conservar aquilo que é bom. Ninguém pode acusar a um monárquico de ser saudosista. Não é o caso de repetir "88" sempre que alguém mal usar o termo "democracia" ou "república". Trata-se de acomodar com alguma ponderação aquilo que melhor posso chamar de termo medianeiro moral. Será que é difícil enxergar assim? Ou precisaremos de um país totalmente caído para perceber a isto? 



Eustáquio Silva 

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