segunda-feira, 29 de maio de 2017

A era das bolhas de sabão

Já diria T. S. Eliot, numa sábia indagação: "Quanto conhecimento perdemos com a informação"? E isto parece ser mais e mais visto quando vemos o limbo em que está-se a meter a opinião pública "formadora de opinião" no Brasil e no mundo.  Quando as notícias e as informações parecem ganhar ares de verdade universal, algo está doente, diria mesmo agonizante, nesta realidade.

Como não notar que diante do último ataque terrorista em Manchester, com a morte de várias crianças, o seu prefeito resolve pedir uma vigília pela paz? Como não notar que o Brasil mistura pedidos pela saída do actual presidente da república Michel Temer com uma grande manifestação com espetáculos e bolhas de sabão? Isto mesmo, senhoras e senhores, eles querem mudar a instabilidade política e social que assola um país continental a soltar bolhas de sabão no ar.

Se é preciso cunhar um novo termo a nossos tempos eu coloco à luz o conceito de uma era da inutilidade. Esta era caracteriza-se pela forte propensão de toda a gente a somente dar azo ao inútil, ao descartável, ao totalmente vazio de sentido. Esta malícia interpretativa é bem mais visto na história. Na forma como transformam uma religião violenta e primitiva em uma insígnia da paz. Como transformam truculência e depredação de património público e privado em democracia, e ditadura em tudo que é contrário. É incrível a capacidade quase resiliente de resistir quase que completamente ao são, ao equilibrado, ao racional.

Esta patologia social é facilmente comprovada quando alguém acusa a vítima de constranger o bandido. Quando chamam de perseguição o pleno funcionamento da justiça. Quando selecionam castamente todas as notícias interessantes, sobretudo as já escritas com tendenciosidade, para que as manchetes favoreçam o domínio mental das pessoas.

Por isto você vai a um café falar mal de Nicolas Maduro, e do que ele faz com ela Venezuela, e todos chamam-te de desonesto intelectual ou fascista, pois ou você não percebeu que Maduro deturpou Marx/Engels e Chávez ou você é contra um governo que privilegia o povo e não os da chamada "elite"

Causa-me brutal impressão a maneira quase desonesta de chamar criminosos, ou ao menos alguns, visto que já estejam condenados pela justiça, de heróis e de perseguidos. Clamam por uma atenção que jamais tiveram. E quando há violência - toda ela consentida - age de forma infantil ora apelando para a infiltração de pessoas no movimento, outra ora para bolhas de sabão em avenidas movimentadas da cidade, repleto de artistas que dariam credibilidade (sic) ao festejo. António Gramsci está aos pulos de alegria com a desfaçatez de tantas pessoas...

O jeito é aguardar um gesto de sanidade de alguns a interpretar que aquilo que vivemos é um crepúsculo, mas não dos ídolos, como diria Nietzsche, mas da razão, da sadia razão, que esvai-se e desaparece como uma "bolha de sabão".



Eustáquio Silva



sábado, 27 de maio de 2017

A mentalidade autoritária na história republicana



      É comum assistir na história contemporânea muitas tentativas de conquistar o poder sem termo. Seja pela absoluta incapacidade de ver o seu comando terminar ou pela deliberada noção de que são o retrato do país em que mandam. Este complexo de Luís XIV nada tem de afeito à monarquia de qualquer natureza, mas a regimes prioritariamente republicanos, supostamente democráticos e quase totalmente socialistas ou comunistas.

      A "dinastia" representada pelos "Assad" em Síria ou os "Castro" em Cuba, ou mesmo a tentativa de Rafael Correa de reeleger-se sem limites ou restrições, são acto-reflexo desta ideia a qual vou chamar de mentalidade autoritária. Todas as vezes que deparo-me com a situação da Venezuela, por exemplo, na qual Nicolas Maduro insiste em ter mais e mais dias sem direito à oposição ou à prestação de contas, eu remonto à ideia: a ditadura que tenta-se com estas artimanhas é absolutamente compatível com a ideia de autoritarismo que este conceito toma como certo. Notadamente países cujo governo cai nas mãos de partidos ou pessoas de pulso de ferro tendem a correr grande risco de perder a ideia de "coisa do povo" para a realidade de "coisa de um só, ou de alguns". O que quero dizer? Que a democracia, ou mesmo a república, em mentalidades puramente autoritárias deturpa-se não só em ditadura, mas em uma espécie de oligarquia formada pelos adeptos e pelos militantes do partido dominante. Esta face em nada tem a ver com nobreza ou não de seus membros, mas a uma formação de verdadeiras células de poder que alimentam-se deste e que procuram a todo custo manter-se nele.

      A Rússia soviética foi o grande exemplo material disto. Enquanto foi pensada para implantar à força o socialismo, sobretudo com a morte do czarismo russo do antigo regime, para, então, poder abolir as formas estatais e migrar ao comunismo, falhou consideravelmente. Nunca ultrapassou a linha estatal socialista e, ainda, aparelhou de tal forma este governo, contra seus princípios teóricos, que se tornou a maior máquina burocrática de seu tempo.

      E isto nada tem a ver com a figura do absolutismo régio do antigo regime. Não eram os reis centralistas que figuravam como homens de apreço moralmente deturpável pelo poder. O rei tinha outro estatuto. O rei certamente poderia falar em permanência no poder, pela sua filiação, ao menos em Europa, de uma perceção bíblica (São Paulo em Epístola aos Romanos - 13, 1-2), todavia não em manchar a sua reputação ao fazer de tudo para que seu domínio aumentasse, mesmo que a apelar para aquilo que chamo de exagero de acção. Mesmo entre os reis modernos, aqueles absolutistas, ou entre tiranos clássicos, não havia a burla como instrumento de aumento de poder. A contrário senso do que há hoje, o governante de nossos tempos quer o poder de qualquer forma, a ponto de usar de todas as armas possíveis para garantir este cetro por mais tempo.

     Em suma, quando meus amigos leitores ouvirem falar em autoritarismo, em quebrar leis para poder usurpar por mais tempo o poder, entre outras coisas congêneres, vejam bem a face por detrás destes pedidos. Vejam claramente aquilo que subjaz claramente adiante disto. Está-se diante do gosto excessivo e estima duvidosa pelo poder. A mentalidade autoritária produziu monstros como a URSS, a Coréia do Norte ou a Alemanha nazista. Não é preciso ir muito longe a perceber isto. E esta mentalidade nasce dentro da república, dentro do seio democrático e muitas vezes com maciço apoio popular. Nasceu do desejo do povo, que, segundo Rousseau, é o sítio de onde emana o poder. Se eu considerar este ponto como inflexão deste domínio imposto eu resumo: é bem dele que brotam todos os problemas e crimes, violência e caos causados pela sede incontrolado de controlo.



Eustáquio Silva

domingo, 21 de maio de 2017

Depois do abismo, o golpe: O Brasil pode ir mais fundo na imoralidade.

Depois do fundo do poço cava-se mais e lá o Brasil esconde-se moralmente. Este é o resumo daquilo que lemos, ouvimos e somos moldados a pensar da crise principalmente moral que assola o país. 

Como se não bastasse uma série monstruosa de delações (colaborações premiadas), nós fomos brindados com uma nova modalidade, aquela em que pessoas confessam crimes a milhares de políticos, inclusive presidentes, e vão para os EUA. Aquela em que a própria definição de "colaboração premiada" é traduzida bem melhor em acordo entre interessados do que qualquer outra coisa. A pergunta, deveras pertinente, de minha amiga, e consciente escritora, Claudia Wild, ecoa com toda a razão: a quem interessa tanta celeridade e tanta campanha da imprensa e de um partido que acabou de sair do governo e tem seu líder máximo investigado em cinco processos? A dúvida é retórica. Ninguém cogite a inocência do presidente Michel Temer que deve ser investigado por receber em sua residência um contumaz criminoso (pela própria confissão dele). Todavia, por qual razão não houve perícia da Polícia Federal como em todos os outros casos, inclusive o da gravação da então presidente Dilma para o mesmo Lula oferecendo um termo de posse em clara obstrução da justiça, a mesma que pedem para prender o também criminoso Aécio Neves? 

O Brasil está por sofrer o golpe final dos desesperados envolvidos na sordidez de assalto ao país. Todos unem-se nos bastidores para anular a Operação Lava Jato e contam com a anuência de falsos heróis e da grande e desacreditada imprensa para conseguirem atingir a seus objectivos. O ritmo da lama está a envolver procuradores do Ministério Público Federal, Juízes de instâncias superiores, advogados, políticos dos dois poderes (legislativo e executivo) e culminam em figuras públicas ligadas por laços espúrios ao mar de piche em que estamos sendo afundados. 

Que o Brasil acabou não tem-se dúvidas. Que este país vai ainda mostrar mais desta podridão lê-se nas entrelinhas destas acções inconstitucionais dos que até agora disseram que "eles cuspiam na Constituição". Querem alterar as leis. Querem justificar os seus erros e querem punir quem pode puni-los. Isto é claro sinal de desordem interna. Diante deste sentimento, o de salvar os próprios pescoços, não tem como haver saldo positivo em economia. O país para. O país espera em crise pelos criminosos não pagaram por seus crimes. Lula, em todo o cinismo e arrogância peculiares, insiste que é o PT que irá combater a corrupção. Seleccionam agora aquilo que eu acho de indignação. Aceitam o processo quando convém. Afastam a este quando são os seus erros os escancarados. Em suma, a situação do Brasil é a de uma metástase de um cancro profundo e brutal. Não haverá mais salvação caso consigam alterar a lei e ponham as eleições directas em primeiro plano. Os rumos deste país são surreais e conformes aos da Venezuela. Aqui eu enxergo o grande perigo. Aqui eu tenho visto a grande artimanha. O Brasil acabou. Mas, enquanto cai num abismo sem fim, ainda aproveitam para mutilá-lo sem dó nem piedade. É isto que o maior país da América Latina foi tornado. Infelizmente... 


Eustáquio Silva 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O fim da República Federativa do Brasil


Senhoras e Senhores, a República Federativa do Brasil acabou. Esta não é uma frase dramática e nem fora de qualquer propósito. Se calhar,  até William Shakespeare diria haver algo de podre na coisa pública brasileira. As últimas revelações de um presidente - a comprar o silêncio de um ex-presidente da Câmara dos Deputados - simplesmente dinamitam qualquer chance deste país erguer-se perante o mal da corrupção. O fundo do poço parece, agora, está acima de nossas cabeças... 

Um país que teve a presidente Dilma a sofrer impeachment recentemente. Que vê o ex-presidente Lula, uma vez mais popular de todos os tempos, implicado em cinco processos penais, agora assiste a Michel Temer, actual presidente brasileiro e ao candidato de oposição na última eleição, Aécio Neves, caírem em escutas e imagens diante da corrupção, a marca registada deste país. A corrida ao cargo mor do executivo ainda conta com o presidente da câmara dos deputados, Rodrigo Maia, e o do Senado, Eunício Oliveira, todos citados na maior operação penal de todos os tempos: a Operação Lava Jato. Temer acaba de pronunciar-se pela não renúncia. Mas o governo está sepultado junto com toda a classe política que agora grita pateticamente por "Directas Já", uma inconstitucionalidade a mais de um processo de sujeira que supera em tamanho toda a Amazónia brasileira. Que mergulha no breu da amoralidade este país. 

A república deu errado desde o começo, com o seu golpe na monarquia em 1889. Estes 128 anos seguintes, no entanto, revelaram-se um autêntico fracasso. Uma vez que o aparelhamento dos poderes e sua convivência cínica chegam para provar definitivamente que o único ponto de evolução deste país nestes últimos anos foi a corrupção - e a sua consequente impunidade. Quando chegamos ao ponto de ver todo o espectro político implicado e figuras que foram destaque dos últimos quarenta anos de Brasil todas em flagrante delito de desonestidade sabemos que este país naufragou de vez. 

A intervenção militar cresce em necessidade. Esta não é uma frase boa a dizer-se. Nunca parece são que interrompa-se uma ordem institucional, porém a sua total fragilidade diante do assalto que os últimos anos de PT e PSDB fizeram (aliados ao PMDB) não nos deixa outro discurso possível. O mal chegou ao limite. Não temos mais para onde descer. Pedir que esperem da classe política, toda ela manchada pelo mal de encher os seus bolsos sem lisura e honestidade, que dê jeito com um grito maldoso de volta de um Lula, por exemplo, é jogar o país nas mãos de quem o destruiu. Não espere qualquer solução mágica e aguardem por interesses obscuros a mais em cima da mesa. Assim é o Brasil. Isto transformou o Macunaíma de Mário de Andrade na perfeita imagem diabólica do cidadão brasileiro, infelizmente. 

Amanhã não se sabe que tipo de Brasil ainda irá permanecer de pé. A economia voltará ao frangalho. As migalhas da república jazem moribundas. A crise não é mais a irresponsável marola que Lula, dentro de seu ilusionismo populista, uma vez professou. O Brasil, tal qual o Titanic, afunda rapidamente, enquanto a cantilena dos órfãos do PT parece tocar um violino desafinado com os refrões de "Lula lá". Não há espaço para retrocessos, aliás, o país parece perecer totalmente num mal espesso e enlameado. 

Por isto, senhoras e senhores, esperemos o desenrolar das próximas delações e das próximas cenas de uma novela pavorosa e destrutiva para ver a que ponto este país de alma mortas ainda apodrecerá sem corpo sepulto. Uns, tal qual Antígona, ou seria a Anti- Antígona, exigem que o país enterre-se com a indecência de criminosos governarem novamente. Pessoas que ameaçaram como Lula o fez o judiciário e a imprensa livre de prisão, visão de uma ditadura socialista à vista. Ordem e progresso nunca existiram neste intervalo. Ou República ou Nada parece ter-se revelado em nada. O que será amanhã? Não sei. Mas o Brasil, flagrantemente, acabou. 


Eustáquio Silva 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venezuela manchada de sangue ...

A quem tem interessado a situação da Venezuela? A grande imprensa, comprometida em culpar Israel pela suposta "escravidão" suportada por meia dúzia de afirmações de que a Palestina é eterna vítima do algoz de todos os tempos? A ONU, que em nada manifestou alguma indignação perante as investidas do ditador Nicolas Maduro que deixa o seu povo com ordenado suficiente apenas a comprar uma cebola fictícia por mês? A cultura "politicamente correcta", a mesma que chama ao Islão de "religião da paz" e persegue o cristianismo como o único mal verdadeiro de toda a história (a não dizer a perseguição clássica dos judeus)? Não, ninguém, de facto, parece importar-se com os vários mortos diários do povo em manifestação contra um presidente que quer eternizar-se no poder. Não há textos, não há "hashtags", não há manifestações. Não vejo grupos ditos de forte voz cujo grito seja "Venezuela Livre" tal qual a "Palestina livre". O silêncio conivente assusta e abandona o povo do país sul-americano a um futuro sombrio. Pessoas morrem e líderes de oposição são aprisionados todos os dias sem que a história presente faça algo para mudar tal cena. Verdadeiros horrores são postos na vala do silêncio, como corpos de todos os tamanhos (homens e mulheres, crianças e idosos) que só cometeram o pecado de discordarem das pretensões absolutistas de um Maduro obcecado pelo poder. 

O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade - partido político socialista, com nome totalmente contraditório e impossível) mantinha forte apoio à situação da Venezuela a qual chamava de "país democrático", o que mudou apenas com o decreto de Maduro de tirar o poder legislativo das mãos de deputados e colocá-lo no Judiciário, em maioria seus seguidores, ou, ainda, nele mesmo. Como hoje em dia é muito mais difícil mentir ao povo e sustentar argumentos contra factos sabidos por muitos, tentam esconder que milhões vãos às ruas contra este regime autoritário. Muitos são presos e agredidos e tantos outros desaparecem ou perdem seu direito mínimo de liberdade e de expressão. Manifestações de chamarem aos adversários daquilo que são abundam na ideologia bolivariana, filha legítima do leninismo clássico do leste europeu. E assim a Venezuela segue cativa e vítima contumaz destes atacantes sem escrúpulos que possuem a célere e costumeira vontade de perpetuarem-se no poder pela força. Isto não é combatido por vários veículos de opinião pública e opositores são mantidos presos ou têm a sua reputação assassinada por uma sequência de actos questionáveis de um governo que assalta um país a ponto deste não ter comida para as pessoas e a criminalidade ser por sobrevivência pura e simples tornando um estado, que deveria ser soberano, em presa fácil e constante de uma série de aproveitadores. Enquanto a Venezuela é manchada de sangue e das campas dos mortos do povo sofrido, alguns preferem chamar de "golpe" o processo de Impedimento da Ex-Presidente Dilma. O que vale a estas pessoas antes é a ideologia do que o bom senso e sempre será assim. Enquanto isto estou à espera das severas críticas a Venezuela. Até quando? Não sei... 


Eustáquio Silva  

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Socialismo é barbárie: notas sobre o seu fracasso ideológico.

Poucos podem dizer, hoje em dia, que o socialismo tenha dado certo. Na verdade, a história, aquela que Fidel Castro, e mais recentemente, Luís Inácio Lula da Silva, invocaram como a franca juíza de seus actos, não pode dizê-los inocentes por defenderem esta bandeira. O socialismo, apesar de sua suposta capa ideológica superior, não passa de um fracasso económico e político e de uma ditadura completa no campo cultural e moral. O que há em solo socialistas é a completa ilusão de um mundo igual por decreto, no qual pessoas poderiam ser "niveladas" em um grupo só, e aqui digamos que só possam ser niveladas por baixo e da pior forma possível. Jogam fora a linha de raciocínio aristotélica de que apenas iguais possam ser tratados de forma igual e desiguais na medida de suas desigualdades assim tratados. E abundam cenários nos quais só destacam-se os preconceitos e imposturas socialistas e não algo que tenham feito de positivo. 

O que há na Venezuela não é democracia, mas a destruição de um país. A perseguição de opositores e o assassínio de manifestantes. A falta de produtos de higiene e comida à mesa das pessoas. Segundo a lógica da publicidade socialista, da luta contra o "capital", tão aludido por todos partidos alinhados aqui, não deveria haver pobres e miseráveis. O senhor Lula vocifera que ninguém fez tantos pelos pobres no Brasil quanto seu governo. Mas estes pobres continuam pobres ou até ficaram mais miseráveis. O que houver, então? O que houve foi que o dinheiro público financiou (como financia mundo afora) os amigos de luta e os chamados "movimentos sociais", que tornaram-se verdadeiras máquinas de produção de bens e poder. Famílias inteiras empregadas em sindicatos. Sindicatos e seus chefes gozando de grande, imensa, infinita riqueza, desmistificando a absoluta falta de realidade do discurso socialista. É imperioso que se diga: Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, dentre tantos, apenas espelham o longo e tinhoso inverno que o socialismo produz. Envenena com barbárie de mortes de toda a espécie. O confronto inútil e a distorção consciente da história para encobrir os seus erros daninhos. 

Certamente a máxima de que "socialismo ou barbárie" pode ser livremente permeada pelo "socialismo é barbárie". Se havia em Rússia czarista uma centena, grande grupo, de "almas mortas", o que dizer do que viu-se com a União Soviética? Que exemplo teríamos de um episódio clássico da história militar no qual Leningrado foi sitiada de 8 de Setembro de 1941 até 27 de Janeiro de 1944, diante da falada força do exército soviético, até que uma cidade quase inteira perecesse à míngua e com graves sintomas de abandono por parte de sua liderança, no caso, o Senhor Estaline, de cuja lembrança nefasta pouco ainda não foi dito. 

Assim a história do socialismo, por longos dias, desde a escrita de suas arestas por Marx e Engels, tornou-se a história da barbárie. Pouco mudou hoje. O que tem de novo daqueles tempos mais bárbaros é justamente o acrescento de uma lógica de socialismo/marxismo cultural, cuidadosamente investido e cultivado por escolas de pensamento como a Escola de Frankfurt, a Escola de Budapeste, Gramsci e outros pensadores, de diversas áreas. Mas jaz ao centro a mesma matriz de cariz ideológico determinado. O movimento de destruição dos pilares ocidentais não é à toa, mas necessário, para já, para que esta mentalidade primitiva e retrógrada assuma posto de poder. Isto incorre em uma grande divisão. O que quer a social democracia é justamente apagar este rasto de sangue e de violência de seus "vizinhos" e por isto são tão odiados, mesmo entre seus companheiros de sala. Vale ressaltar algum destaque a poucas e raras excepções pensantes, mas de um modo geral, e sem sombra de dúvidas, nestes meandros estão soldados de uma guerra única desde os primórdios que está ressaltada na falsa disjunção - ou diria na disjunção inclusiva - de socialismo ou barbárie. Se tens um fatalmente terás o outro, sem escolha de um dos chifres. Então a figura é esta e cabe a nós saber divisá-la sem a máscara oportuna das boas intenções, para vê-la, assim como diz Nelson Rodrigues, assim "como ela é". 



Eustáquio Silva. 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Fernão Lopes, a história e a literatura no génio português.

Fernão Lopes (+- 1385 / 1459 ou 1460) é um daqueles nomes ímpares da história ocidental. Dono de uma escrita rebuscada, se calhar a mais bem acabada de seu tempo, e pioneiro da grande safra de escritores portugueses, este primeiro cronista régio e guarda-mor da torre do Tombo significou muito mais. Em seu tempo dedicou suas letras à memória de Portugal. Por ele, por encomenda do rei Dom Duarte, o eloquente - em preocupação devora com a cultura, a lei, e a preservação de seu país - passaram as linhas correspondentes aos Reis Dom Pedro I, Dom Fernando e Dom João I, pai de Dom Duarte. Mas atribui-se com certa razoabilidade a este mesmo autor a Crónica de 1419, sobre a primeira dinastia ou A Crónica dos Sete Reis do Conquistador Dom Afonso Henriques até o Bravo Dom Afonso IV. Seu estilo figura, então, naquele estilo que pode-se chamar de crónica, em voga em toda idade média, e com retoques e assinatura de um grande génio das palavras. 

Na Crónica de outrora, como dito por tantos, estão encerrados elementos de rigor documental, de preocupação histórica, bem como elementos de uma fina e atraente literatura. Este caminho Lopesiano à perfeição de escrita excede o mero encômio de seus senhores, pois ele mesmo declina a dizer do que percebe como bom escritor, bom "estoriador". Diz o guarda das escrituras da Torre do Tombo: Outra cousa geera aimda esta comformidade e natural inclinaçom, segundo semtença dalguus, dizemdo que o pregoeiro da vida, que he a fame, reçebemdo rrefeiçom pera o corpo, o sangue e spritus geerados de taes viamdas, tem huua tall semelhamça antre ssi, que causa esta comformidade. Ou seja, um escritor que faz de sua "fome", ou sua necessidade, uma conformidade para com o que conta, em verdade, está a, apenas, desviar-se da verdade em prol de seu benefício. Desde Fernão Lopes, ou bem antes dele, o ofício bajulador é tomado como negativo. O escrito ideológico é apartado da seriedade. Mesmo com panos literários, usa-os como estilo e não como recurso de género textual, o seu lema é ler, ou mesmo interpretar, com apuro e grande certeza do que diz. Careço, certamente, de ver autor com tamanha forma suave de juntar as palavras. Aquele que precedeu Camões no ofício das boas letras portuguesas, tendo João de Lima e Sevilha um precursor à atura, mesmo que na língua galaico-portuguesa, não está, sem sombra de dúvidas, abaixo da grande responsabilidade que é elevar em muito o nome das letras e literatura portuguesa. Não engane-se o leitor com sua produção completamente voltada à história, pois em seus anos, história e narrativa, boa narrativa, séria narrativa, tinham certa identidade possível e até atractiva. 

Se muito da história de Portugal, em especial de um Portugal dos séculos XIV e XV, está em suas páginas, até o ponto de autores quererem dizer que ele criou personagens como João das Regras, célebre procurador da causa de D. João, então Mestre de Avis, nas cortes de 1433 (como vê-se em teses já defendidas e conseguidas), pode-se dizer que em suas linhas magistrais estão partes sentidas de um pedaço considerável de memória e cultura. Isto não é retirado dele e por isso calha bem ser lido como historiador de grande valia e, também, enquanto grande literato e mestre das letras em um país que acostumou-se com nomes sublimes como este mais ocidental dos países europeus. 

Vale muito a pena acostumar-se com este grande autor e incentivador da cultura portuguesa e lê-lo com a estima, e sem o preconceito evolucionista, que merece por seus grandes méritos em ensaiar a história da forma como o fez. Isto não pode ser tirado dele, de forma alguma. 


Eustáquio Silva.