sábado, 27 de maio de 2017

A mentalidade autoritária na história republicana



      É comum assistir na história contemporânea muitas tentativas de conquistar o poder sem termo. Seja pela absoluta incapacidade de ver o seu comando terminar ou pela deliberada noção de que são o retrato do país em que mandam. Este complexo de Luís XIV nada tem de afeito à monarquia de qualquer natureza, mas a regimes prioritariamente republicanos, supostamente democráticos e quase totalmente socialistas ou comunistas.

      A "dinastia" representada pelos "Assad" em Síria ou os "Castro" em Cuba, ou mesmo a tentativa de Rafael Correa de reeleger-se sem limites ou restrições, são acto-reflexo desta ideia a qual vou chamar de mentalidade autoritária. Todas as vezes que deparo-me com a situação da Venezuela, por exemplo, na qual Nicolas Maduro insiste em ter mais e mais dias sem direito à oposição ou à prestação de contas, eu remonto à ideia: a ditadura que tenta-se com estas artimanhas é absolutamente compatível com a ideia de autoritarismo que este conceito toma como certo. Notadamente países cujo governo cai nas mãos de partidos ou pessoas de pulso de ferro tendem a correr grande risco de perder a ideia de "coisa do povo" para a realidade de "coisa de um só, ou de alguns". O que quero dizer? Que a democracia, ou mesmo a república, em mentalidades puramente autoritárias deturpa-se não só em ditadura, mas em uma espécie de oligarquia formada pelos adeptos e pelos militantes do partido dominante. Esta face em nada tem a ver com nobreza ou não de seus membros, mas a uma formação de verdadeiras células de poder que alimentam-se deste e que procuram a todo custo manter-se nele.

      A Rússia soviética foi o grande exemplo material disto. Enquanto foi pensada para implantar à força o socialismo, sobretudo com a morte do czarismo russo do antigo regime, para, então, poder abolir as formas estatais e migrar ao comunismo, falhou consideravelmente. Nunca ultrapassou a linha estatal socialista e, ainda, aparelhou de tal forma este governo, contra seus princípios teóricos, que se tornou a maior máquina burocrática de seu tempo.

      E isto nada tem a ver com a figura do absolutismo régio do antigo regime. Não eram os reis centralistas que figuravam como homens de apreço moralmente deturpável pelo poder. O rei tinha outro estatuto. O rei certamente poderia falar em permanência no poder, pela sua filiação, ao menos em Europa, de uma perceção bíblica (São Paulo em Epístola aos Romanos - 13, 1-2), todavia não em manchar a sua reputação ao fazer de tudo para que seu domínio aumentasse, mesmo que a apelar para aquilo que chamo de exagero de acção. Mesmo entre os reis modernos, aqueles absolutistas, ou entre tiranos clássicos, não havia a burla como instrumento de aumento de poder. A contrário senso do que há hoje, o governante de nossos tempos quer o poder de qualquer forma, a ponto de usar de todas as armas possíveis para garantir este cetro por mais tempo.

     Em suma, quando meus amigos leitores ouvirem falar em autoritarismo, em quebrar leis para poder usurpar por mais tempo o poder, entre outras coisas congêneres, vejam bem a face por detrás destes pedidos. Vejam claramente aquilo que subjaz claramente adiante disto. Está-se diante do gosto excessivo e estima duvidosa pelo poder. A mentalidade autoritária produziu monstros como a URSS, a Coréia do Norte ou a Alemanha nazista. Não é preciso ir muito longe a perceber isto. E esta mentalidade nasce dentro da república, dentro do seio democrático e muitas vezes com maciço apoio popular. Nasceu do desejo do povo, que, segundo Rousseau, é o sítio de onde emana o poder. Se eu considerar este ponto como inflexão deste domínio imposto eu resumo: é bem dele que brotam todos os problemas e crimes, violência e caos causados pela sede incontrolado de controlo.



Eustáquio Silva

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