quinta-feira, 4 de maio de 2017

Fernão Lopes, a história e a literatura no génio português.

Fernão Lopes (+- 1385 / 1459 ou 1460) é um daqueles nomes ímpares da história ocidental. Dono de uma escrita rebuscada, se calhar a mais bem acabada de seu tempo, e pioneiro da grande safra de escritores portugueses, este primeiro cronista régio e guarda-mor da torre do Tombo significou muito mais. Em seu tempo dedicou suas letras à memória de Portugal. Por ele, por encomenda do rei Dom Duarte, o eloquente - em preocupação devora com a cultura, a lei, e a preservação de seu país - passaram as linhas correspondentes aos Reis Dom Pedro I, Dom Fernando e Dom João I, pai de Dom Duarte. Mas atribui-se com certa razoabilidade a este mesmo autor a Crónica de 1419, sobre a primeira dinastia ou A Crónica dos Sete Reis do Conquistador Dom Afonso Henriques até o Bravo Dom Afonso IV. Seu estilo figura, então, naquele estilo que pode-se chamar de crónica, em voga em toda idade média, e com retoques e assinatura de um grande génio das palavras. 

Na Crónica de outrora, como dito por tantos, estão encerrados elementos de rigor documental, de preocupação histórica, bem como elementos de uma fina e atraente literatura. Este caminho Lopesiano à perfeição de escrita excede o mero encômio de seus senhores, pois ele mesmo declina a dizer do que percebe como bom escritor, bom "estoriador". Diz o guarda das escrituras da Torre do Tombo: Outra cousa geera aimda esta comformidade e natural inclinaçom, segundo semtença dalguus, dizemdo que o pregoeiro da vida, que he a fame, reçebemdo rrefeiçom pera o corpo, o sangue e spritus geerados de taes viamdas, tem huua tall semelhamça antre ssi, que causa esta comformidade. Ou seja, um escritor que faz de sua "fome", ou sua necessidade, uma conformidade para com o que conta, em verdade, está a, apenas, desviar-se da verdade em prol de seu benefício. Desde Fernão Lopes, ou bem antes dele, o ofício bajulador é tomado como negativo. O escrito ideológico é apartado da seriedade. Mesmo com panos literários, usa-os como estilo e não como recurso de género textual, o seu lema é ler, ou mesmo interpretar, com apuro e grande certeza do que diz. Careço, certamente, de ver autor com tamanha forma suave de juntar as palavras. Aquele que precedeu Camões no ofício das boas letras portuguesas, tendo João de Lima e Sevilha um precursor à atura, mesmo que na língua galaico-portuguesa, não está, sem sombra de dúvidas, abaixo da grande responsabilidade que é elevar em muito o nome das letras e literatura portuguesa. Não engane-se o leitor com sua produção completamente voltada à história, pois em seus anos, história e narrativa, boa narrativa, séria narrativa, tinham certa identidade possível e até atractiva. 

Se muito da história de Portugal, em especial de um Portugal dos séculos XIV e XV, está em suas páginas, até o ponto de autores quererem dizer que ele criou personagens como João das Regras, célebre procurador da causa de D. João, então Mestre de Avis, nas cortes de 1433 (como vê-se em teses já defendidas e conseguidas), pode-se dizer que em suas linhas magistrais estão partes sentidas de um pedaço considerável de memória e cultura. Isto não é retirado dele e por isso calha bem ser lido como historiador de grande valia e, também, enquanto grande literato e mestre das letras em um país que acostumou-se com nomes sublimes como este mais ocidental dos países europeus. 

Vale muito a pena acostumar-se com este grande autor e incentivador da cultura portuguesa e lê-lo com a estima, e sem o preconceito evolucionista, que merece por seus grandes méritos em ensaiar a história da forma como o fez. Isto não pode ser tirado dele, de forma alguma. 


Eustáquio Silva. 

Sem comentários:

Enviar um comentário