quarta-feira, 7 de junho de 2017

A queda do ocidente e o "Oitenta e oito".

Poucas coisas são tão notórias em nosso tempo, em nossos dias, do que o declínio ocidental. Mas não é o bastante lançarmos aos leitores esta impactante expressão sem explicar aquilo que entende-se por "ocidente". Ocidente é justamente, e não apenas um conceito geográfico, topográfico, o trecho de terra, do planeta, no qual desenvolveram-se grande parte da nossa civilização. Nas eras imediatamente anteriores a Cristo e depois dele, foi neste campo da terra que temos contada a história e disseminada a cultura que deu origem a boa parte do mundo que hoje vemos. Foi no "oeste", ou melhor dito, no ocidente que tivemos três grandes pontos históricos, agrupamento de pessoas ou produção cultural que transformaram o mundo definitivamente.

A filosofia grega: um movimento que começou com a construção do mito e foi ladeada pela edificação do teatro, das artes e da ciência grega. Mas foi a Filosofia grega quem destacou para mundo conceitos que perduram e nutrem este grande grupo que são os ocidentais. Os pensadores de antes de Sócrates até as portas do domínio romano legaram-nos conhecimentos de cosmologia, astrologia, ciências, lógica, metafísica, dentre outros, que foram grande base do conhecimento humano. A ética grega deveria ainda hoje ser alicerce das acções e relações entre os homens, e mesmo que não tenham criado muitos de seus conceitos, foi com a sua visão de síntese, quase euclidiana de construção geométrica, que expandiu-se o que hoje chamamos de cultura de berço.

O Direito Romano: pelo qual cunhamos conceitos, nem sempre favoráveis a meu pensamento, mas que são, indubitavelmente, pilares de nosso mundo: república, propriedade privada e pública, justiça, dentre tantos outros. Por este caminho os séculos edificaram um direito que pode-se considerar melhor acabado do que o primitivismo, do que o barbarismo cuja melhor manifestação seriam vistos onde o direito romano não possuiu influência alguma.

A ética, o modo de vida judaico-cristão: o complemento de intelecto, leis e conduta, em verdade, só pode ser o conteúdo, o espírito interno desta sociedade ou destas sociedades. E é a rica completude entre judaísmo e cristianismo quem produziu este fecho. Na verdade, a nossa moral e a nossa valoração das coisas perpassa aquela descrita e vivida no seio destas religiões ou de conceções que nasceram deste meio. O judaico-cristão cimenta uma harmonia entre a esfera intelectiva e social do homem com o elemento espiritual necessário ao bem viver e ao bem agir.

Este modelo ocidental de vida começou a ser combatido, implodido, justamente com a Revolução Francesa. O Iluminismo refundava as bases filosóficas tirando da filosofia grega e medieval o seu papel essencial. A ideia cartesiana de cogito estava posta em primeiro plano numa elegia à razão de dentro do indivíduo. A ascensão do idealismo era complementada pelo fluxo do empirismo exagerado (e distorcido) cuja principal função seria legitimar uma visão nova. A isto serviram Diderot (e a Enciclopédia), Voltaire (e o Cândido) e Condillac (e o Sensualismo, uma espécie de super-empirismo). Estava assim ferida a epiderme do mundo ocidental.

Na mesma revolução houve uma nova guinada jurídico-legal. O espírito das leis mudou. Rousseau também foi grande contribuinte para isto. A natureza humana foi refundada e, com ela, também foi refundada a sociedade. As máximas de lei eram agora voltadas para direitos e não mais - ou de forma menos clara - ao par, ao binómio direitos e deveres. Assim o direito romano rebatizado pelo contributo dos direitos de costumes bárbaros, estava oficialmente em xeque.

Por fim, e ainda no âmbito desta refundação da natureza humana, por exemplo, as bases do judaico-cristão estiveram desde 1789 (ou de antes disto) a serem combatidas. A questão teológica relegada a um porão frio e de pouca frequência de visitas. O laico sobe ao campo de obrigação. O religioso perde a dimensão espiritual e torna-se "social", "engajado", a caridade foi substituída pela filantropia. O espírito de auxílio aos necessitados ao de bandeira ideológica. Caía em xeque o último pilar. Trincava a última grande ideia e atitude ocidental. O problema estava posto.

O que vem depois? Aí está o maior perigo. Questionar a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã trouxe-nos coisas nada avançadas e nada queridas. A ideia de igualdade passou a construir horizontes como o de uma globalização política e uma padronização de comportamentos. O politicamente correto, seletivo e questionável, promove uma campanha de aceitação massiva de elementos externos, em nome da convivência, da aceitação e do não-preconceito. O islão, incompatível com o ocidente passou a ser a única grande religião que o culturalismo quer doutrinar como a aceite. O cristianismo e o judaísmo, seus defensores ou mesmo seguidores, são a crítica da vez. Protestos artísticos de deboche destas duas religiões multiplicam-se a todo tempo. A conformação social é a de um ambiente de liberdade, de igualdade e de uma fraternidade, mesmo que somente de conveniência e entre os pares. Da revolução francesa vieram, a reboque, a revolução russa e todas as suas consequências; as pequenas revoluções dos últimos dois séculos e os chamados movimentos de minorias sociais. O mundo não era mais aquele. O ocidente não é mais ocidente.

Esta figura e estado de coisas faz surgir uma petição. Uma necessidade. Como o louco homem, que após a revolução francesa, grita "oitenta e oito" numa tentativa desesperada de viver o antes. Isto é impossível. Mas o conservadorismo é o não à revolução francesa e suas derivadas. O conservador, desde Burke, põe-se como última instância contrária a tudo isto que aquele ano de 1789 representou. O conservador é justamente aquele guardião destes três pilares, único guardião, que os faz ainda não serem mortos. Luta contra tudo e todos. É simplesmente um grande lutador em suas poucas ocasiões contra a máquina revolucionária de nossos tempos. A rebeldia que mata, que escraviza em nome da liberdade e que passou a ser referência de como agir e de como pensar. Só com esta visão das coisas pode-se notar o tamanho da crise. E, espero eu, que o mundo perceba a isto em tempo. Ou as coisas serão piores em breve, bem em breve.



Eustáquio Silva.

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