sexta-feira, 9 de junho de 2017

O mito do nazismo de direita

O artigo publicado por George Reisman no site Mises Brasil diz claramente: Por que o nazismo era socialismo e por que o socialismo é totalitário? fala bastante do que quero dizer neste texto sobre o mito nazista de "direita". Em primeiro lugar abro um parêntese: a nomenclatura esquerda e direita, típica da Revolução Francesa, não é-me predileta. Acho que há várias formas de poder referir-se a diferentes pontos e posturas políticas sem aludir a posição como estavam desenvolvidas as diferentes mentalidades na altura - ou no entorno - de 1789, em solo francês.

Segundo Reisman, a contribuição de Ludwig von Mises foi, decididamente, demonstrar a caracterização do estado nazista enquanto socialista. E este estado socialista de coisas, a partir de 1936 e em diante, transformou-se em autoritarismo e totalitarismo. O restante da história e demasiado conhecida e demasiado debatida há anos. A vertente do artigo é puramente económica, mas eu devo dizer que precisamos discuti-la, também, em um viés histórico.

O que mais define um estado socialista? A grande, eu diria, a enorme presença do Estado. Neste ponto a Alemanha dobrou-se sobre si. Não é um organismo internacional ou internacionalista como o comunismo, todavia é assim o comunismo, e não o socialismo. O socialismo pode, muito bem, ser totalitário e fechado. E neste ponto lembrem-se de um ponto da "ideologia nazista" que geralmente passa despercebido: a eugenia. A raça ariana não pode ser, ou não deveria ser, ao menos, fechada exclusivamente sobre um povo, pois a definição de estado não abarca - ao menos teoricamente - a presença de invidíduos de uma raça inteira. Há judeus no mundo inteiro. O que os faz judeus não é pertencer a Israel como cidadão, mas a pertença às tradições e culturas, principalmente ao herdamento da religião. Isto deve ser muito bem pensado para que não pousemos a raça ariana apenas sobre o solo alemão. O controlo militar e político é uma coisa, a ideologia e cosmologia nazista são outra e bem distinta coisa.

Vale ressaltar que mesmo o chamado radicalismo de direita não é perseguidor das personagens que o nazismo foi. O nazismo, ou "O nacional socialismo", é, na verdade, uma espécie de socialismo. Assim como o socialismo fabiano, assim como o "socialismo e liberdade" (sic). Este socialismo nacional, que também cobre o fascismo, historicamente tem elementos em comum com o socialismo tradicional ou científico e não o capitalismo que escolheram para coloca-lo no espectro. Alguém já viu algum capitalismo, por mais mascarado que seja, sem a liberdade de mercado e a liberdade de fazer-se mercado? Alguém já viu fazer-se mercado livre com restrições de povos e pessoas no mundo contemporâneo? Mesmo em passos mais antigos da história é possível ver comércio entre reinos em guerra, pois o comércio independe das vicissitudes bélicas, a não ser que estejamos a falar de uma guerra ideológica, e era esta a fomentada pelo nazismo contra os seus inimigos. Como se não bastasse a lógica dos factos, não convencem-se nem da filologia dos nomes, então há dificuldades de manter-se este discurso.

Qualquer pessoa, em sã consciência, percebe que o nazismo era socialista, sobretudo se seguir não só a linha económica, mas a social e a política da época. Qualquer pessoa igualmente longe da insânia pode vislumbrar que os passos da confirmação do nazismo no poder (e até a sua queda) sugerem necessariamente que houve a mesma sequência de eventos que existe em ascensões socialistas mundo afora. Primeiramente algo junto ao povo. Em nome da democracia. Contra a tirania dos "outros". Depois que se assume o poder, a vigilância, a falta de respeito pela diferença e a perseguição e censura declaradas em nome do decoro, dos limites morais e assim por diante. Até hoje tentam negar os mortos do comunismo, mas aos do nazismo ninguém ousa fazê-lo. Porém a estratégia é retira-los do espectro da "esquerda"e por isso construíram o mito que existem totalitarismos de um lado que não o socialista neste sentido. Percebam a isto e estarão vendo a lógica mitológica existente.


Eustáquio Silva


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